sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Who watches the Watchmen?
Alan Moore e Dave Gibbons, 1986
DC Comics
Ao longo da História da BD, a Marvel e a DC Comics sempre disputaram o primeiro lugar no pódio das editoras de BDs. É praticamente impossível dizer que a Marvel é melhor que a DC, ou vice-versa, porque ambas criaram super-heróis de referência. Se a DC foi a mãe do super-herói mais conhecido, o Superhomem, e do mais enigmático e complexo, o Batman, a Marvel criou figuras fantásticas como os X-men, o Capitão América, o Iron Man e o Homem-aranha. Se há BD que pode decidir entre as titãs das BDs, será o Watchmen, editada pela DC. Esta obra, escrita por Alan Moore (V de Vingança) e ilustrada por Dave Gibbons, destacou-se do género por ter apostado no formato de graphic novel e por ter como protagonistas pessoas normais, com complexo de super-heróis.
A história de Watchmen situa-se nos anos 80, altura em que o mundo acordava todos os dias com medo de voltar a ouvir caças a sobrevoar as suas casas. Nos Estados Unidos, a população temia que Nixon declarasse guerra à União Soviética a cada momento. O clima era de tensão. Mas não só pioravam as relações entre a URSS e os EUA, como pelas ruas se intensificava a prostituição e a criminalidade. O povo norte-americano vivia não só com medo de uma iminente guerra como de sair de casa.
E quando o tapete da segurança foge dos pés, o povo agarra-se a tudo o que seja entretenimento e procura heróis. De facto, foi na altura da Guerra Fria que as noir graphic novels de Frank Miller (Sin City, Daredevil) começaram a despertar o interesse do público.
Colocando-se na cabeça da população, Alan Moore criou uma história sobre pessoas fascinadas com os super-heróis que leram na infância, como o Capitão América e o Superhomem, e que perceberam que o mundo precisava dessas figuras pelas ruas. Munidos de nomes e roupas excêntricas, salvavam o mundo dia após dia, sem voar nem lançar teias de aranha.
Os Watchmen, ou Crimebusters, eram imparáveis, tanto que deixavam a polícia frustrada e a população revoltada, por agirem acima da lei. Pressionado pela polícia e pela contestação pública, o Presidente acaba por promulgar a lei Keene, que exige que todos os "mascarados" se registem no Governo. Mas como pedir a alguém que só quer fazer o bem que deixe ser vigiada e que veja o seu trabalho ser limitado como um mero funcionário público? Insultados, a maioria dos Crimebusters acaba por se afastar da vida de super-herói.
Anos mais tarde, surgiu uma nova geração de Watchmen, inspirados pelos primeiros. Mas o desafio que têm de enfrentar é mais pesado que a lei de Keene: um por um, os Watchmen estão a ser perseguidos e mortos. O motivo daquela "caça às bruxas" ninguém imagina...
Watchmen levanta uma série de questões morais, políticas e sociais, como nenhuma outra BD. Ao usar pessoas normais como protagonistas e questionar a liberdade dos super-heróis, entramos num mundo muito mais complexo que as aventuras do Superhomem. E numa altura em que até os superheróis são perseguidos, a quem é que nos podemos agarrar? Este é o reflexo de uma Nova Iorque arrastada para a sarjeta, suja e perdida, em que os carteiristas se tornaram violadores e os políticos são os criminosos mais temidos.
O melhor: a graphic novel termina com um dilema que deixa as mãos a tremer e a cabeça a girar.
(Spoiler)
Adrian Veidt, aka Ozymandias, um dos Watchmen, engendrou um plano genial para evitar a eminência da Terceira Guerra Mundial, durante a Guerra Fria: um monstro alienígena que destruiu metade de Nova Iorque, deixando o resto do Mundo em pânico, temendo uma possível invasão de aliens. Resultado: os Russos deram tréguas, prometendo não avançar com as tropas no Afeganistão até se perceber o que se passou em NY e garantir que o resto do Mundo não sofreria réplicas. Veidt, considerado "the smartest man in the world" percebeu que, em tempos de insegurança, os povos deitam as armas por terra e unem-se, porque sabem que precisam uns dos outros caso a mesma desgraça lhe suceda. Tudo por interesse, claro, mas é sem dúvida infalível. Ozymandias engendrou um imenso massacre "pela paz no Mundo" e emocionou-se quando percebeu que o seu plano resultara. Mas como Dr Manhattan lembrou, nothing lasts forever.
Veredicto: 10/10
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
O livro na escuridão
Veredicto: 4/10
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Sicko (2007)
Realizado Por: Michael MooreIMDb
Michael Moore é das mais conhecidas vozes dissidentes da América, muito por culpa da exposição que tem tido através dos seus vários documentários. Normalmente obcecado por mostrar aos mundo os horrores perpetrados pela administração Bush (Fahrenheit 9/11) ou dos norte-americanos contra si próprios (Bowling For Columbine), em "Sicko" Moore faz uma incursão pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, onde reinam as seguradoras e onde o lucro é suficientemente importante para justificar que ande a morrer gente sem necessidade.
Há algo comum em todos os documentários deste estilo onde a ideia é chocar-nos, mexer com os nossos sentimentos, surpreender-nos e se possível fazer-nos revoltar. Ou qualquer combinação destes. O grande problema de inúmeros activistas, embora bem intencionados, acaba muitas vezes por ser o extremismo, uma certa cegueira pelas ideias que ardentemente defendem e cujo tiro acaba por sair pela culatra. O mundo está cheio de exemplos destes, onde boas ideias acabam por terra exclusivamente por falta de bom senso.
Moore não se enquadra propriamente nesta descrição mas os seus documentários têm a tendência para me deixar de pé atrás pela maneira americana que usa para criticar a... maneira americana. Embora adopte à primeira vista uma atitude de investigação imparcial, Moore é demasiado sensacionalista na forma como nos mostra o resultado das suas diligências, mesmo compreendendo que o objectivo é chocar e mobilizar.
Há factos inegáveis em "Sicko", provavelmente a esmagadora maioria deles e claramente são suficientes para nos sensibilizar e nos fazer crer que algo está muito podre no reino da América. No entanto, da mesma forma que nos anúncios de produtos de beleza em que vemos um "Antes" e um "Depois" o antes é particularmente desleixado e o depois é particularmente cuidado, também "Sicko" sofre dessa assimetria na forma como pinta a América como um matadouro e basicamente o resto do mundo como um paraíso onde tudo é a borla e qualquer um, com uma mão no bolso, tem pelo menos 3 LCDs em casa e 2 BMWs à porta. Para quem vive fora da América, pelo menos, acreditar piamente nos factos de Moore é quase uma questão de fé. Da América apenas o mau é mostrado, do resto do mundo apenas o bom.
Não deixa de ser curioso como a digressão mundial pelas várias realidades que o realizador nos apresenta termina precisamente em Cuba. Não obstante a estupidez néscia e inútil que é ter levado consigo um grupo de voluntários do 11 de Setembro gravemente doentes para serem tratados na base de Guantánamo (!) - que obviamente não funcionou - a passagem por Cuba propriamente dita é interessante até porque é do domínio público a categoria dos cuidados de saúde em terras de Fidel.
Que as coisas na América levam caminhos misteriosos, já todos sabíamos. Mas não nos queiram fazer crer que tudo são rosas nos outros lugares. "Sicko" é um bom documentário e sobretudo tecnicamente bem executado, como é apanágio de Michael Moore. Sofre apenas de um astigmatismo que incomoda e que acaba por funcionar um pouco contra a própria mensagem.
E agora que Bush está fora de cena - ou mais ou menos isso - será que Obama vai levar Moore ao desemprego?
Veredicto: 6,5/10
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
The Man From Earth (2007)
Realizado por: Richard SchenkmanCom: David Lee Smith, Tony Todd, John Billingsley, Ellen Crawford
IMDb
Assumindo de antemão um desconhecimento quase total em relação a Jerome Bixby, vale a pena explorar brevemente a importância deste escritor no panorama da ficção científica na última metade do século passado. Apesar de uma bibliografia reduzida, Bixby escreveu o argumento original de It! The Terror from Beyond Space - que haveria de servir mais tarde de inspiração para o "Alien" de 1979. Além disso, teve um contributo importante em Star Trek, nomeadamente com a criação do conceito de "Mirror Universe", em 1967. De maior relevância para o assunto que nos traz aqui hoje é "Requiem for Methuselah", um episódio também do Star Trek, que Bixby imaginou e escreveu.
É o desafio perpétuo de qualquer crítico de cinema - sei que o é para mim, mesmo não sendo um crítico per se - escrever sobre um filme sem beliscar minimamente a experiência de quem ainda não o viu. Diria que não é possível, sobretudo em certos filmes que dependem da surpresa. "The Man From Earth" não é propriamente um episódio de "24", em que cada detalhe é um twist que só visto - lembro-me que às tantas já não conseguíamos discutir a série entre amigos. Mas é tão bom e toma proporções tais que qualquer espectador merece entrar nesta estória completamente a frio. Ou seja, vejam o filme, se ainda não o fizeram e depois, por que não retomar o discurso deste vosso humilde escriba?
...
Fazer um filme com meia dúzia de actores, um par de cenários e muita conversa é especialmente simpático para o produtor. No caso de obras como por exemplo "Cube" ou a parte central "Saw", é óptimo também para quem assiste pois, da mesma forma que muitas vezes os jogos mais simples são os mais viciantes, também um filme despido de adereços e fortemente baseado no diálogo pode ser extremamente cativante. É o que se passa com "The Man From Earth", um filme que começa com o pretexto de uma festa de despedida ad-hoc do Professor John Oldman e resulta porque as razões dessa despedida e o próprio passado de Oldman - e que passado - são absolutamente fascinantes.
Esse fascínio é muito semelhante àquele que sentimos quando estamos à volta de uma lareira a ouvir uma excelente estória de quem já viveu muitos anos e tem muito para contar. Bixby, ao criar Oldman incutiu-lhe essa estória e Richard Schenkman, enquanto realizador, deu-lhe as condições para que funcionasse no ecrã. Passamos quase hora e meia a ouvir fascinados episódio atrás de episódio de algo que toma proporções bíblicas. Literalmente.

"The Man From Earth" é um bom teste à nossa credulidade, até que ponto acreditamos no que nos dizem e até que ponto é possível abalarem as bases das nossas convicções. Por outro lado, é apenas uma óptima estória de ficção científica, especialmente para aqueles a quem o termo repele - não há aqui naves espaciais, nem homenzinhos verdes. Há apenas e só uma bela ideia para um argumento, que naturalmente não pede licença para esticar o que entendemos por plausível - interpretada de forma magnífica por um punhado de actores desconhecidos. David Lee Smith é especialmente cativante no principal papel, num ambiente que faz lembrar de certa forma "Twin Peaks". Aliás tudo neste filme cheira a indie. No bom sentido.
Apenas uma reclamação. Mesmo no final, Schenkman tem a oportunidade de nos deixar ir embora na dúvida, aliás como todos os colegas de Oldman que ouviram a estória. Não sei como é o argumento original de Bixby - completado em 1998, pouco antes de morrer - mas o realizador optou por nos dar a verdade à colher. Às vezes é melhor sabermos menos e imaginarmos mais.
Veredicto: 7/10
Óscares 2009
Entretanto, o nosso conselho directivo está já a conspirar no sentido de termos algumas actividades lúdicas relacionadas com a cerimónia deste ano, por isso mantenham-se atentos a este espaço. Não podemos é prometer anões, nem cavalos e muito menos mulheres nuas - a não ser no "Second Life", obra de arte para a qual a Tracey já nos sensibilizou, ou melhor, nos preveniu.
Stay tuned!
Wavering Radiant

Não sei se gosto muito, pouco ou nada do título do novo álbum de Isis - "Wavering Radiant" - mas também who gives a shit? São os Isis, voltam 3 anos depois aos LPs e quem os conhece sabe bem do que estou a falar: bliss.
Hoje ficamos a saber que já há datas concretas para o lançamento do 2xLP e CD, 21 de Abril e 5 de Maio, respectivamente. Corriam rumores que um elemento dos Tool iria contribuir de alguma forma para o álbum, falava-se do Justin - que já não seria virgem nessas andanças - mas confirma-se agora que foi o Adam Jones que emprestou os seus dotes de guitarra em dois faixas. E convém não esquecer que as responsabilidades de produção estão desta feita a cargo de "Evil" Joe Barresi (Kyuss, The Melvins, Queens of the Stone Age, Tomahawk, L7, The Jesus Lizard). Can't.. fucking.. wait.
Acho que é hora de resgatar a turn table e comprar este bebé em vinil...
Sete mortes, sete vidas
Seven PoundsRealizado por: Gabriele Muccino
Com: Will Smith, Rosario Dawson, Michael Ealy
[SPOILERS]
Sete vidas é um filme interessante apesar de ter uma história muito mais interessante do que o filme. Um homem provoca um acidente onde morrem sete pessoas; a partir desse dia a sua vida resume-se a salvar sete vidas, como forma de reparar o dano causado. Para salvar a última pessoa comete o sacrifício final de dar a sua própria vida.
Notas:
- O filme começa com uma parte da sequência final. Começar com o fim é um recurso gasto e é preciso alguam habilidade para o usar, sob pena de se ficar com uma espécie de teaser promocional agarrado ao início do filme que no todo fica apenas como apêndice desnecessário.
- Will Smith talvez não seja o actor indicado para o papel principal de 7 Pounds, falta alguém com um ar mais respeitável (e que não tenha feito três filmes por ano nos últimos anos).
- Rosario Dawson está perfeita naquele papel, ficarei atento aos próximos trabalhos da senhora que já tinha aparecido com ar de má em Sin City.
O que mais me irrita é mesmo o facto de uma história tão interessante e que até está bem executada em filme (a história flui bem, o filme tem o tempo certo se excluírmos o intervalo da Lusomundo, a fotografia é interessante, a personagem secundária é interessante, etc...) acabar por sair prejudicada em 7 Pounds.
Ponho a culpa em Will Smith mas também nas escolhas que levam a explorar demais o amor entre Ben e Emily. Na verdade o tema principal não é este amor, que é comum e banal, é sim a dedicação e esforço de Ben em reparar a fatalidade que inadvertidamente causou. Isto merecia ser melhor explorado - o sentimento de culpa, a vontade de reparar o dano causado, o altruísmo até para desconhecidos e, em suma, o poder semi-divino que Ben tem de salvar sete vidas.
Há sete pessoas salvas, há um homem que se sacrifica para salvar sete vidas e no fim temos de aturar meio filme a ver uma relação do género "as palavras que nunca te direi"... Seria interessante ver o que outro realizador faria com este argumento.
Veredicto: 6/10
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Second Life (2009)
Com: Piotr Adamczyk, Lúcia Moniz, Cláudia Vieira
IMDb
Depois de Corrupção e O Crime do Padre Amaro se terem tornado êxitos de bilheteira, o produtor Alexandre Valente (que entrou para a História do Cinema Português por ter estreado Corrupção à revelia do realizador, que retirou a sua assinatura do projecto), acreditou ter encontrado a receita do sucesso e especialmente, uma maneira de levar o público português a pagar pelo Cinema português: mulheres nuas e sexo. Quando concebeu Second Life, pensou que as cenas íntimas entre Liliana Santos e Sandra Cóias bastariam para vender o filme ao "grande público" (que insulta por tratá-lo como um devorador de cenas porno) e torná-lo "o melhor do ano". Como bem afirmou João Lopes em Sound+Vision, um filme não se mede pela quantidade de pessoas que leva ao Cinema, ou melhor, isso não deve ser razão para dizer que um filme é bom. Vejamos por exemplo, o Mamma Mia!, que foi o filme mais visto em Portugal em 2008, e salvo erro o DVD mais comprado na Grã-Bretanha. É um bom filme? Não, está mal realizado, as câmaras parecem andar loucas à procura da frenética Meryl Streep que canta e dança por cada canto da sua ilha grega. É um fun movie que leva toda a gente ao Cinema, como a Rita Guerra e o Tony Carreira figuram nos Tops Fnac - não são bons, mas por alguma razão, há quem goste.
Alexandre Valente afirmou, prepontente, que Second Life é o melhor filme português até agora realizado e que iria revolucionar o Cinema do nosso país. Claro que me deu vontade de rir quando ouvi isto, porque pelo trailer e pelo historial do realizador, já imaginava que não ia sair grande coisa. Mais tarde, 82 penosos minutos depois (pareceu longo apesar de curto), as minhas suspeitas confirmaram-se. Além de não existir qualquer química entre os actores, que representam o grupo de amigos mais desinteressados e pouco à-vontade de sempre, os diálogos são tão ridículos e pobres que parecem ter sido escritos por uma criança de 14 anos. Contexto: o filme passa-se durante uma festa de aniversário no Algarve, em que o anfitrião (o polaco Piotr Adamczyk) é encontrado morto na piscina e se torna a voz-off do filme, passando em revista a sua vida nos últimos anos e as escolhas que podia ter feito e que podiam ter evitado este destino. Entretanto, vamos descobrindo traições e mentiras dos seus amigos em relação a si, mas nada de muito elaborado - o enredo tão simples e previsível que insulta o espectador mais básico.
Pergunto-me agora se Alexandre Valente não aprendeu nada com Manhã Submersa, de Lauro António, ou Alice, de Marco Martins, exemplos de que o Cinema português é bom e pode ter sucesso junto ao público. Parece que Alexandre Valente só está interessado em fazer dinheiro da maneira mais fácil e triste possível. Será que ele acredita que Second Life é mesmo um bom filme ou está a gozar com o público português?
Veredicto: 1/10
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Barcelona... outra vez
Com: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Rebecca Hall
IMDb
Nos meus tempos de baterista de rock and roll quando havia mais do que uma banda no mesmo concerto, se uma das bandas tocasse primeiro o Enter Sandman ou o Fear of the Dark, a banda que vinha depois já não repetia músicas. Uma regra invisível, escrita em pó e areia mas que era cumprida pela maior parte das bandas de bom senso.
O Paulo já tinha aqui escrito sobre o Vicky Cristina Barcelona mas eu não posso deixar de falar sobre este filme americano filmado aqui ao lado. Começando pela cidade, que eu ainda não visitei: é sabido que Allen queria incluir Barcelona como personagem no filme, que ela tivesse a sua marca e presença. Eu achei que a cidade estava ominpresente, de facto, mas como cenário. Eram prédios e pinturas, ruas e mercados, espaços bonitos mas que sem a verdadeira alma da cidade (esta ou outra qualquer) são como cenários de cartão. Vemos o aspecto de Barcelona mas não chegamos a ver a vida em Barcelona. Não é como a Roma de Ladrões de bicicletas ou a Tóquio de Cão danado, que a todo o momento vivem e espreitam, chocam com os personagens ao longo da acção.
Aqui a única parte de Barcelona que choca com os personagens é o pintor espanhol, Juan. A cidade como fundo, o pintor como elo de ligação. E o vinho, o maldito e omnipresente vinho! A presença contínua de copos de vinho irrita-me quase tanto como o pintor espanhol. Na primeira meia hora este homem asqueroso irrita-me, no resto do filme vai-se redimindo mas nunca chega a convencer (nota: a representação é notável, quase sem falhas). O problema não é tanto o personagem, que está bem retratado. O problema é a existência real de pessoas assim. A minha colega Rita confirma que em Barcelona há muitos destes personagens (ela viveu lá uns meses, trabalhando para o estúdio do Sr. Mariscal) e acha também que a verdadeira Barcelona é mais do que aspecto, há uma vida própria que podia ser captada e não foi.
No fim o que mais me afasta do filme é o realismo, ou melhor, a plausibilidade dos sentimentos, pessoas e acontecimentos. Perturba-me o facto de tudo aquilo poder acontecer (e acontece de facto) a toda a hora em todo o mundo (claro que nem sempre será condensado num quinteto amoroso como o que vemos aqui). E é por ter uma amiga Cristina, amigos e amigas Vicky, conhecidos Maria, e saber que existem Juan por aí que este filme não me consegue agarrar tão bem como devia.
Reconheço que o defeito não está no filme, todo ele bem executado. Mas há ali uma veracidade tal que o filme não é credível para mim, é demasiado "normal". O cinema de ficção é para mim o espaço do real imaginado, do sonho, do improvável. Um filme em que cada personagem, cada acção e cada sentimento podem de facto existir não me cativa.
Mas aí entra de forma subtil o génio de Allen. O filme acaba onde começa, no aeroporto, completanto um círculo que lembra Janela indiscreta. América - Barcelona - América. É como se tudo não passasse de um sonho numa noite de verão (neste caso um mês): em sonhos damos a volta ao mundo e conhecemos pessoas fantásticas; de manhã acordamos onde nos deitámos.
E é assim que 5 minuto depois de acabar o filme até fiquei a gostar.
Dou uma nota muito positiva à banda sonora, repetitiva o suficiente para ajudar ao cómico. O lado cómico é todo ele muito subtil, o que torna interessante e mais real (outra vez o real). A câmara é dinâmica, estilo europeu - se há traveling faz-se com steady cam, nada de carris; se há plano fixo a câmara não está no tripé, etc... Isto ajuda a dar o toque europeu ao filme, como se não bastasse já todos os cenários, ambientes, referências, amores exagerados, etc. (gostei quando o espanhol diz "é como se faltasse o sal" e a americana fica espantada "sal!?" - talvez uma referência à guardadora de patos do dramaturgo inglês.
Veredicto: 7/10
Post Scriptum - apaguei este 7, escrevi 6; queria escrever 6.5 mas não uso meios pontos; escrevi 7; depois 6 outra vez; e no fim fica assim porque não há assim tanta coisa que falte no filme. Sal? Não fosse a maluca da espanhola (grande interpretação de Penélope) e podia faltar sal ao filme.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Três Foi a Conta Que dEUS Fez
Manic Street Preachers - The Holy BibleEste foi também o último album dos Manics antes do desaparecimento (literal) de Richey James Edwards, guitarrista da banda, que se seguiu a complicados períodos de depressão. Ainda hoje os restantes elementos da banda continuam a acreditar piamente que Richey pura e simplesmente decidiu retirar-se de cena e está a viver outro vida noutro lugar, rejeitando a hipótese da sua morte. E convenhamos, quão difícil é, hoje em dia, desaparecer?
Nada Surf - High/LowEntretanto a banda foi-se tornando cada vez menos irreverente, optando pela contenção e pelo pop stripped down tipo Death Cab For Cutie, mas continuam a ser os meus Nada Surf. E uma das grandes lacunas foi nunca os ter apanhado ao vivo, mesmo já tendo passado várias vezes por Madrid.
Green Day - InsomniacPor vezes deixo-me enamorar pelo glamour de ter agora 40 anos e poder dizer que cresci com Dylan, Lou Reed, Led Zeppelin, Deep Purple e os Beatles. Não é o caso, cresci com Nirvana, Offspring e Green Day. Mas depois rapidamente me apercebo que a música é intemporal e tenho muito tempo pela frente para descobrir. Pura e simplesmente descobrir.
Son of Rambow (2007)
Com: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes.
IMDb
Estreou em Portugal no Festival de Cinema Independente de Lisboa'08, integrado no programa Indie Júnior, uma inovação do certame. Pelo seu horário de exibição, às 10h, não vi, na altura do festival, aquele que considerei uma das grandes apostas do evento. De facto, Son of Rambow acabou por receber o Prémio do Público Indie Júnior. É fácil perceber porquê.
Incentivado pelo rufia da escola, Lee Carter, Will conheceu o Cinema a partir de algumas cenas de um filme de Rambo. Will identificou imediatamente os heróis que desenhava no caderno com as aventuras do intrépido soldado norte-americano e concordou com Lee em ser o protagonista dos seus trash movies, inspirados na personagem de Sylvester Stallone.
É assim que começa uma verdadeira ode à amizade e ao Cinema como o imaginamos desde pequenos: uma aventura que apenas depende de uma câmara de filmar, actores destemidos e algumas engenhocas. Somos completamente contagiados pelo entusiasmo de Will e Lee, que estão decididos a ganhar um concurso para jovens cineastas. De facto, Garth Jennings não podia ter encontrado melhor forma de nos puxar para dentro do filme, já que a modesta vila que serve de cenário, as calças apertadas em baixo, o ar de punk dos anos 80 de Didier, um estudante francês, e o deslumbre pelo despontar da tecnologia são o espelho da nossa infância. Saímos do filme com vontade de ser crianças outra vez, de acreditar em tudo com a mesma ingenuidade e sede de devorar o mundo como outrora.
Veredicto: 7/10
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
João Aguardela
Multiplicam-se as homenagens por essa blogosfera no dia em que desaparece de cena um dos grandes músicos Portugueses, João Aguardela.Nestas alturas, prefiro ser parco em palavras e guardar o silêncio e agradecimento que estas pessoas merecem. Não tive o prazer de conhecer bem o trabalho do João Aguardela, esporadicamente ouvi Sitiados e A Naifa por exemplo, mas tenho um enorme respeito por todos aqueles que vivem a sua arte e nos tornam melhores através dela.
E como há sempre palavras de outros que dizem melhor do que eu alguma vez poderia dizer, aproveito para citar um parágrafo que resume muito do que sinto, via O Homem Que Sabia Demasiado:
Um país que venera siglas como CR7, figuras como Tony Carreira e quejandos, mas que ignora um músico que contribuiu para solidificar uma certa ideia de identidade musical portuguesa, não merece muito respeito.Sem tirar nem pôr.
Aquilo lá em cima é cada vez mais um paraíso musical...
Slumdog Millionaire (2008)
Realizado Por: Danny BoyleCom: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Freida Pinto
IMDb
Danny Boyle era até agora conhecido sobretudo por ser o realizador do seminal Trainspotting - e, em menor escala, pelo interessante 28 Days Later - mas isso agora acabou. Slumdog Millionaire passa a ser uma referência no currículo deste britânico de 51 anos, película já galardoada com o Globo de Ouro para o Melhor Filme Dramático do ano e certamente com lugar reservado em várias categorias da cerimónia dos Óscares que se aproxima.
Há três coisas particularmente interessantes em Slumdog Millionaire. A primeira prende-se com o retrato de uma Índia que nem sempre nos é dado a conhecer, muito mais próxima da favela brasileira. É neste panorama - onde notavelmente todos parecem estar contentes no seu quotidiano, sobretudo as crianças - que os irmãos Jamal e Salim crescem e se desunham por sobreviver apoiados nos seus instintos e na sua argúcia.
O segundo aspecto notável é como Boyle consegue transpôr para este filme o ambiente frenético e o ritmo acelerado de Trainspotting. Que o estilo funciona também aqui é não só um atestado da qualidade de Boyle e da montagem do novato Chris Dickens, mas também algo que acaba por ser um dos trunfos de Slumdog Millionaire ao longo das suas duas horas. E já que se fala de montagem, começa a tornar-se lugar comum hoje em dia andar com analepses e prolepses. O sucesso da escolha por esse estilo acaba por ser se o filme beneficia disso, ou não, e definitivamente Slumdog Millionaire não só beneficia como me arriscaria a dizer que não podia passar sem isso. Pelo menos, estaria mais longe do grande filme que é.

Finalmente, e correndo o risco de reduzir um pouco a experiência de quem ainda não teve oportunidade de ver o filme (leia-se spoilers), o terceiro aspecto é como Boyle disfarça o que na realidade é uma estória de amor, e bem bonita enquanto tal. Estórias destas já têm barbas no grande ecrã, mas funcionam sempre se as personagens nos interessarem, se nos preocuparmos com elas. Aqui, Jamal e Salim são tudo menos planos e o percurso deles é apaixonante, fazendo com que nos colemos ao ecrã a seguir as suas aventuras.

Que toda a publicidade à volta do filme aponte para o facto de Jamal ser um concorrente da versão indiana do "Quem Quer Ser Milionário?" que sabe a resposta a todas as perguntas, embora verdade, é apenas mais um brilhante truque de ilusionismo.
O porquê de Jamal saber as respostas é que é a alma de Slumdog Millionaire e o seu verdadeiro toque de magia.
Veredicto: 8/10
RocknRolla (2008)
Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton
IMDb
Aqui está um belo pedaço de filme.
Começemos pelo princípio. Guy Ritchie nasceu e cresceu como um verdadeiro Bretão.
Conhecendo as característica que tornam um ser em humano e um ser humano num cidadão da Rainha, Ritchie colocou toda essa perspicácia em acção nos seu filmes. Tal como a selva Londrina, as comédias escritas e realizadas por ele vão além do punch-and-gag do costume no panorama inglês. Guy prefere a farsa. E a definição cinematográfica de farsa é um conjunto amplo de personagens que se cruzam directa ou indirectamente numa espiral de eventos que levam a uma temida e inesperada conclusão, dentro ou fora do controlo dos mesmos.



Com os seus contactos, Lenny pode subornar a Câmara Municipal a emitir o alvará de uma construção de outra forma proibida. Para isso precisa de dinheiro e é aí que entram os russos. Uri, depois de emprestar o seu quadro da sorte a Lenny, contacta a sua contabilista, Stella para "esconder" nos livros sete milhões de libras. Ao invés disso, Stella procura One Two e Mumbles, um terço do Wild Bunch, para roubar o dinheiro que ela vais "esconder", sem que Uri saiba. Só que One Two e e Mumbles estão em dívida para com Lenny.
Mesmo assim, sem saber de quem é nem para que serve o dinheiro, roubam-no na mesma e Lenny não consegue prosseguir o negócio. Começa o caos. Lenny procura os ladrões sem saber que são One Two e Mumbles, Uri duvida de Lenny, One Two e Mumbles pagam ao mesmo e o quadro emprestado é roubado sabendo-se mais tarde que por Johnny Quid, um rocker drogado e profundamente filosófico que se revela enteado de Lenny Cole.
Quando Uri pede o quadro a Lenny e este descobre quem o tem, é tarde demais. Uns "amigos" de Johhny Quid já o tiraram de casa e venderam a.... One Two que por sua vez ofereceu ao seu interesse amoroso, Stella, contabilista do Russo.
De salientar a espectacular cena de sexo: duas horas de sexo em 3 segundos. Apenas flashes de bocas, narizes e olhos enquanto se ouvem gemidos.
Quanto à banda sonora, é escusado entrar em grandes detalhes. Como sempre é o claro ponto forte da qualquer filme de Guy Ritchie. Se existe melhor "mood setter" que ele e a sua playlist cinematográfica, não sei quem é. Talvez Tarantino. Mas menos Rock And Roll.
O cast de actores esteve como sempre soberbo a interpretar a ralé Cockney e a realização obedece à eterna regra de Ritchie: estilo a cima de tudo - a forma como se diz é mais importante e melhor, mais interessante, do que o que se diz. Daí a narração que entra na cabeça dos personagens, os diálogos constantes e familiarmente cool e a importância que é dada à violência como sub produto da geração MTV.
E é disto que é feito "um" Guy Ritchie: Sexo, Drogas, Música, Comédia, Crime, Punk Glam e por último e mais importante, Rock and Roll.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Gran Torino (2008)
Com: Clint Eastwood, Cristopher Carley, Bee Vang, Ahney Her
IMDb
É admirável que o actor que muitos de nós instantaneamente associam com o loirinho sem nome de Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo leve já 53 anos de carreira como actor, os últimos 37 dos quais também como realizador e que resultaram em dois Óscares para Melhor Realizador e Melhor Filme (Unforgiven e Million Dollar Baby) sem esquecer outras tantas nomeações nas mesmas categorias (Mystic River e Letters From Iwo Jima). Eastwood é um daqueles senhores incontornáveis do cinema contemporâneo, cujos filmes privilegiam a estória em detrimento dos adornos, a substância em desfavor do estilo, muito na linha de algumas referências orientais, lembrando-me de repente de alguns filmes de Takeshi Kitano como Brother ou Hana-Bi. Todos os movimentos são em prol da estória que Eastwood nos quer contar.É também admirável que aos 79 anos de idade Eastwood volte a desempenhar funções de realizador, produtor e também de actor, 4 anos depois do brilhante Million Dollar Baby. Desta vez Eastwood é Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coreia, que fica viúvo imediatamente antes do início da estória que nos contam e cujo ódio e preconceito o levam a desprezar todos os que vivem à sua volta, incluíndo a sua própria família. A sua mais importante possessão, fruto dos anos que trabalhou numa fábrica da Ford, é um Gran Torino de 1972, que ele passa longos momentos a limpar e polir no jardim à frente da sua casa e no qual foi ele próprio, segundo conta, que montou a coluna da direcção.
Não é por isso de espantar que a sua atitude perante os seus vizinhos Hmong não seja propriamente a melhor. Na verdade, ele detesta-os, mais ainda quando um deles, o sossegado Thao, tenta roubar o seu Gran Torino. Quando Walt percebe que a mão de Thao foi forçada por um gang de asiáticos que o tentavam iniciar nas suas actividades, esse acaba por ser mais um elemento no processo de conversão de Walt, que começa a perceber que tem mais em comum com aquelas pessoas que moram ao lado do que inicialmente gostaria de admitir, algo que é acentuado a cada exemplo de egoísmo e materialismo da sua própria família.Daqui para a frente não estarei a revelar nenhum segredo se disser que o objectivo de Walt passa a ser transformar Thao num homem à séria - pelo menos pelos seus padrões... - com capacidade de enfrentar os perigos da sua comunidade e defender-se a si próprio. A partir daqui, claro está, temos em mãos um conto clássico de como Walt abraçou estes Hmong e como estes o abraçaram a ele, contra todos os preconceitos e como os problemas deles passaram a ser também problemas dele.
Aborrecido? Nem por isso, porque Eastwood sabe realmente contar uma estória e Gran Torino não resulta num único momento de enfado. A resolução do filme é rápida e atípica e, não sendo incompreensível, tem o potencial para nos deixar um pouco frios. Talvez ajudado por isso, mentiria se dissesse que é um filme tão satisfatório como Million Dollar Baby ou Mystic River, apesar de partilhar alguns elementos de estilo com ambos. Na verdade, Gran Torino é mais uma pérola na forma de uma estória anti-racista que fica muitíssimo bem na folha de serviço de Eastwood.Veredicto: 7,5/10
HBO's True Blood
Acabei de ver o oitavo episódio da série de vampiros da produtora HBO, True Blood.
Existe um adjectivo que não deveria existir no panorama prime-time da televisão americana: aborrecido.

A série é lamechas, pedante, mal escrita, lugar comum, falsa e redundante.
Todos os clichés quanto à mitologia de vampiros estão presentes quer por negação ou aceitação dos mesmos. A única diferença, muito mal aproveitada, é que a série tem como pano de fundo os terrenos pantanosos da Louisiana. Nova Orleães para ser mais preciso.
Mas o impacto da terra crioula é pouco interessante ou negativo até. Tudo que se torna evidente de tal condição é o sotaque dos personagens.
Quanto a estes, é raro ver uma série que explore tanto o mundo dos estereótipos. Desde o engatatão à alcoólica, o bonzinho sensaborão à púdica, os saloios e o galã. Mas em toda esta parafernália de personagens repetitivos, encontra-se um refrescante: Lafayette. Um afro-americano gay que trabalha no pub de dia e se prostitui à noite a vampiros em troca de sangue que vende como droga a humanos. Tudo com sentido de humor e um alento badass bem à americana.
O melhor da série é mesmo a banda sonora. Johnny Cash, Ry Cooder e na faixa dos créditos iniciais, um brilhantemente inserido "Bad Things" de Jace Everett.
Nunca tão em vão foi usado um crédito a um produtor ou série: embora seja produzida por Alan Ball, esta série nada tem a ver com Six Feet Under ou com American Beauty.
O grande problema da HBO é que já não consegue produzir material bom o suficiente para rivalizar com a era dourada (Lost, 24, The Wire, etc...) e baseia-se nas fórmulas da moda. Tenta ser profundo e finge tocar no âmago da experiência humana, no entanto tudo o que faz é focar a percepção do âmago da experiência humana.
Redundante.
Aborrecido.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Vicky Cristina Barcelona (2008)
Realizado Por: Woody AllenCom: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Rebecca Hall
IMDb
Mais que não seja, "Vicky Cristina Barcelona" foi a oportunidade para Javier Bardem voltar a usar um corte de cabelo decente, depois da partida que os irmãos Coen lhe pregaram no brilhante "No Country For Old Men", grande vencedor dos Óscares do ano passado. Além disso, é mais um exemplo da versatilidade de Bardem, bastando recordarmo-nos, por exemplo, de "Mar Adentro" ou mais recentemente de "Love In The Time of Cholera". Este espanhol, natural das Canárias, já não é particularmente novo nestas andanças mas só recentemente parece ter dado o salto definitivo para o estrelato e ameaça tornar-se numa referência incontornável do cinema contemporâneo.
Mas voltemos a "Vicky Cristina Barcelona", que já venceu o Globo de Ouro para melhor filme musical ou comédia este ano, assinalando mais um sucesso do recente comeback Woody Allen. Confesso que deste regresso apenas vi "Scoop" e confesso também que não lhe achei a mínima piada. Se é verdade que sou um adepto confesso, por exemplo, do humor de "Seinfeld", não é menos verdade que não sou particularmente apaixonado pelo graças de Allen.
Talvez por isso tenha gostado bastante mais de "Vicky Cristina Barcelona" pois os apontamentos de humor são esparsos e funcionam, não deixando por isso de ser um filme quase sempre bem disposto. Scarlett Johansson, aqui no papel de Cristina, continua a ser o denominador comum dos novos filmes de Woody Allen, tendo falhado apenas "Cassandra Dream". Nova nestas andanças é Rebecca Hall (Vicky) que se junta a Cristina para passar dois meses de verão em Barcelona. Está justificado o título do filme.
Como percebemos rapidamente, Vicky é mais responsável que Cristina, ou pelo menos acha que sim. Está a estudar em Espanha, para o seu mestrado, e tem o marido à espera em New York para casar assim que regressar a casa. Cristina é a eterna sonhadora, que segundo a própria não sabe o que quer, apenas o que não quer. Os primeiros 15 minutos de filme podiam ser os primeiros 15 minutos de tantos outros filmes que começam com a mesma permissa, mas o que distingue "Vicky Cristina Barcelona" é a forma como Juan António (Bardem), um pintor divorciado, aborda Vicky e Cristina à mesa de um restaurante num dos jantares tardios em Barcelona. O teor da proposta de Bardem é um clássico instantâneo.Tudo o que se passa nestes dois meses é digno de uma fantasia, a começar por Bardem que é demasiado interessante para ser verdade. Todos os personagens sofrem de um desequilíbrio qualquer, mas destes, afinal de contas, todos sofremos. As coisas tornam-se realmente divertidas quando a psicótica ex-mulher de Juan Antonio, Maria Elena (numa grande interpretação de Penélope Cruz que me reconquistou desde que vi "Abre Los Ojos"), entra na jogada e temos a oportunidade de presenciar o desenrolar fugaz de uma relação que só tem estabilidade, ainda que momentânea, se for a três.
Bardem, em todo o caso, é o Dom Juan perfeito: faz amor com três mulheres diferentes em poucos dias sem proferir um único logro, um único engano, uma única mentira. A sinceridade é aliás um dos pontos dominantes deste filme. Todos os diálogos são, também por isso, bastante cativantes e o ritmo do filme é quase perfeito. Não há aqui nada de transcendente, apenas divertido de seguir. "Vicky Cristina Barcelona" é um filme bem giro mas tenho muitas dúvidas que seja material para conquistar realmente um Globo de Ouro, independentemente das excelentes interpretações nele contidas.
Mas haverá melhor cidade para aventuras amorosas que Barcelona no Verão?
Veredicto: 7/10
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Before The Devil Knows You're Dead (2007)
Claro que há - sobretudo se não estivesse a fazer o amor com o Philip Seymour Hoffman que tem tanto de genial actor como lhe falta de sex appeal. Mas não deixa de ser um início prometedor, antevendo que estamos, provavelmente, perante um daqueles filmes sem medo de ser atrevido, cru, provocador. Puro e duro. Oops, no pun intended.
Agora que as atenções estão viradas para os Óscares, vale a pena revisitar um filme que lamentavelmente passou ao lado disso há um ano, mas que interessa conhecer e sobretudo viver. Sidney Lumet (Serpico, Dog Day Afternoon) traz-nos um épico retrato da vida real que nos deixa ao mesmo tempo desconfortáveis e fascinados. Um relembrar que por vezes o que parece ser inconsequente e inofensivo acaba por despoletar uma série de acontecimentos nefastos absolutamente devastadores e impossíveis de travar.
É difícil falar de "Before The Devil Knows You're Dead" sem desvendar muita da essência daquilo que nos faz vibrar com esta estória e nos deixa colados ao ecrã durante as duas horas que esta película dura. Se não viram este filme, também não vos vou revelar mais nada. Vale a pena embarcar nesta viagem a saber zero. Se já viram, então sabem do que eu estou a falar (já dizia o outro).
Mas ainda assim há tanto para elogiar. Os irmãos são Hank e Andy, interpretados por Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman, respectivamente. Marisa Tomei é a mulher no meio, amante de um e mulher do outro, mas este é um triângulo que de triângulo até tem pouco, pois o enfoque não é esse. Andy acaba por saber de viva voz que tem sido enganado durante muito tempo mas a verdade é que quando acaba por saber, esse já é o menor dos problemas de ambos os irmãos.
Além das doses massivas de realismo, é inteligente a forma anacronista a la "Pulp Fiction" como os acontecimentos se sucedem. Ao mostrar-nos a mesma cena mais do que uma vez, com enquadramentos diferentes, estando mais informados que da última vez, Lumet consegue prender-nos ainda mais. O tom do filme é melodramático do princípio ao fim e o score de Carter Burwell é magnífico na forma como nunca se mete no caminho limitando-se a sublinhar o drama. Nada é apressado.
"Before The Devil Knows You're Dead" é um filme que merece ser visto, revisto, saboreado mas não há muito para discutir sobre ele para além da admiração das suas qualidades. É uma simples estória de um plano que correu mal e cujas consequências vão para além do pior pesadelo de todos os envolvidos. Hawke e Hoffman estão brilhantes no papel dos irmãos que vêem tudo desmoronar-se à sua volta e passam da confiança ao remorso total. Albert Finney faz de pai de ambos e tenho dificuldade de lembrar-me de um rosto mais crispado pela dor psicológica que o dele.
Como passou um filme destes completamente ao lado do buzz dos Óscares é algo que me intriga mas que constituiu, a meu ver, uma discussão perfeitamente irrelevante. Sidney Lumet não tem a regularidade de um Scorsese ou de um Kubrick mas não deve, a espaços, em brilhantismo a qualquer deles. No entanto, e como afirma Roger Ebert, não deixa de ser bonito que um realizador que ganhou Óscar de Lifetime Achievement, realize três anos mais tarde um dos seus maiores feitos.
Veredicto: 9/10
Låt den rätte komma in

Tem sido um bom ano para os vampiros. Desde o aborrecido Twilight (Crepúsculo) à série da HBO True Blood, dos produtores de American Beauty e Six Feet Under, passando pelo anúncio da transformação do anime Blood: The Last Vampire a filme live action.
Quanto a Let the Right One In, apenas tive a oportunidade de ver o filme uns meses depois, recomendado por Robert McKee.
A primeira impressão que dá desta obra de Tomas Alfredson é que vai ser mais um parado filme nórdico: escuro e branco.
Mas o sueco prova que primeiras impressões podem ser enganadoras.
O filme fala de Oskar, 12 anos, uma criança marginalizada na escola por rufias em maior número e ignorado em casa pela mãe. Um dia conhece Eli, uma menina da sua idade que vive com o seu avô e se torna sua vizinha. Na sua inocente alienação, encontram um no outro um companheiro para desligar do mundo exterior.
Enquanto isso, na sua pequena vila sob a neve, pessoas começam a desaparecer misteriosamente sem que ninguém, excepto os familiares, se dê conta.
À medida que o filme avança, as duas crianças tornam-se intímas e começam a apaixonar-se e o filme reveste-se de momento adoráveis ao vermos as trocas de olhares entre Eli e Oskar. Até que descobrimos que Eli é na verdade uma vampira que se tem alimentado dos vilões.
Para não oferecer spoilers, refiro simplesmente que na alternância entre violência explícita e romantismo pré adolescente, o climax do filme simboliza a perfeição com que o guião foi escrito a deambular para uma conclusão que satisfaz e renova a paz de alma com que o filme começa.
Entre outros pontos a salientar nesta aposta sueca, destaca-se o espectacular desempenho do cast maioritariamente composto por crianças. De notável intensidade e crueza, tanto Kåre Hedebrant como Lina Leandersson e Per Ragnar seriam claros candidatos a óscares, tivessem nascidos em países mais egocêntricos...
A beleza do filme está subjacente à profundidade com que permeamos nos sentimentos destas crianças cujos comportamentos as isolam tanto quanto a neve que os rodeia. O romance que broteja enquanto Oskar descobre que Eli é uma vampira, até que seja tarde demais para abandoná-la; a constante Eli, fria e imortal, presa no corpo e incoerências próprios de uma rapariga de doze anos, mesmo assim tomando este rapaz fraco e débil, não só vendo nele talvez um pouco dela mas aquilo que ela não se lembra de ter: um lado humano.
No final das contas, com ainda muito por dizer, a imagem inicial do filme é metaforicamente exacta: a neve branca e intensa como amor, amizade e o nosso lado humano a infiltrar-se ligeira e subtil mente no escuro vazio, dificil e violento das sombras citadinas.
Certamente um 10/10, dos melhores filmes que já vi.
A Troca (2008)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Antevisão: O Estranho Caso de Benjamin Button
Da autoria de Francis Scott Fitzgerald, O Estranho Caso de Benjamin Button (1922) é mais que um romance, é um produto de uma época. Benjamin Button nasce "sob estranhas circunstâncias", como um bebé "enrugado", na noite do Armistício da Primeira Guerra Mundial, em 1918. A mãe morre ao seu nascimento, e o pai, assustado com a aparência do filho, deixa-o à porta de uma mulher negra que governa uma residência. Apesar da distância que se afirmava na altura entre brancos e negros, a mulher recebe aquele bebé estranho, que parece ter nascido com 80 anos. E antes de partirmos ao filme que David Fincher realizou a partir da obra de Fitzgerald, convém explicar a premissa deste texto. O Estranho Caso de Benjamin Button é um produto de uma época porque o protagonista, encantado pela possibilidade de rejuvenescer em vez de envelhecer, como os restantes, parte para a Marinha para descobrir o mundo e dedica a vida a aproveitar ao máximo cada dia, o que não é mais que a típica tendência de um pós-guerra - a imediata sede de viver depois das limitações que a guerra obrigou.No fundo, o nascimento de um bebé com 80 anos no dia em que a Primeira Grande Guerra terminou, e a sua futura leviandade perante um futuro de todas as possibilidades é um retrato da Idade do Jazz nos Estados Unidos da América e uma metáfora sobre todos os fins de guerra. Benjamin Button nasce na idade da morte para a vida, tal como uma guerra termina para a sociedade renascer.
Apaixonado por projectos ambiciosos, David Fincher (Sete Pecados Mortais, Clube de Combate, Zodíaco), propôs-se a adaptar o complexo romance de Fitzgerald ao cinema, e para isso não podia ter convidado outra pessoa senão Brad Pitt, um Hércules da representação que deu aos seus filmes a intensidade necessária para torná-los verdadeiras obras-primas - especialmente como o psicótico Tyler Durden de Clube de Combate, que foi elegido recentemente como a Melhor Personagem de Cinema de Todos os Tempos, tendo até superado o Senhor do Mal, Darth Vader (Star Wars).
Fincher temeu o desafio que significa filmar uma pessoa durante toda a sua vida, neste caso, como aponta o Ipsilon, "desde a cova ao berço", e Pitt também se revelou preocupado com o resultado, mas a julgar pelo trailer, a adaptação parece ter sido bem conseguida, através de pequenos duplos que representaram um Pitt baixinho e enrugado, e uma boa dose de efeitos especiais, que tornaram o actor muito diferente do típico alto e musculado a que nos acostumámos.

Outra problemática explorada neste filme é a fugacidade do tempo, que não permite aos amantes vivenciarem-se e conhecerem-se ao mais profundo de si. Benjamin Button é apaixonado por Daisy Fuller desde a infância, mas existe um fosso etário gigante entre ambos, que os coloca em pontos extremos do tempo. Daisy é uma criança vivaz e Benjamin um pequeno velhote quando se conhecem. Daisy é mulher madura e Benjamin está no pico da sua juventude quando se voltam a encontrar. Encontros e desencontros amorosos acontecem em todo o lado e com toda a gente, mas este é um caso em que alguém ganha a vida que o outro perde, ano após ano, tornando as suas vidas completamente opostas.
Além de enfrentar o progressivo envelhecimento da mulher que ama, Benjamin tem de lidar com a morte das pessoas mais importantes para si, à medida que fica mais forte e que os seus horizontes se alargam em oportunidades. Afinal, as pessoas que o rodeiam não podem viver com ele as suas descobertas e emoções.
Em O Estranho Caso de Benjamin Button, o pós-guerra é o ponto de partida para uma história sobre o tempo e a fragilidade do amor e da vida humana. Estreia a 15 de Janeiro nas salas de cinema portuguesas.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Opeth - The Roundhouse Tapes (DVD) [2008]
Tirando o facto deste DVD nos chegar já depois de termos "Watershed" nas mãos, o mais recente álbum dos suecos Opeth, mas documentar a digressão do álbum anterior, "Ghost Reveries", dificilmente poderíamos contar com melhor recuerdo dessa mesma tour. Filmado numa noite há mais de dois anos na Roundhouse em Londres, "The Roundhouse Tapes" vem apoiado em mais de 200 (!) espectáculos ao longo de ano e meio na estrada, mostrando por isso uns Opeth com a máquina muito bem oleada.Pode-se argumentar que não se gosta da voz de "monstro das bolachas" que Åkerfeldt usa em boa parte do repertório (não é certamente o meu caso) mas é inegável o sentido de dinâmica apuradíssimo desta gente e que fica bem patente neste concerto. Ficou, aliás, demonstrado em todas as três vezes que já tive a oportunidade de os apreciar ao vivo e claro está, em todos os seus álbuns. A banda não deixa os seus créditos por mãos alheias e este DVD conta com um som poderosíssimo, bem definido e em surround, graças ao excelente trabalho de captação e posterior produção a cargo de Jens Bogren e do próprio Mikael Åkerfeldt.
Além de ser o ponto alto da tour de "Ghost Reveries", este é também um marco importante na história da banda por ser o último concerto com Peter Lindgren na guitarra, ele que fez parte da banda durante 16 anos e achou que já chegava desta coisa do rock. Tendo em conta que neste registo todos os álbums lançados até então são contemplados - com excepção de "Deliverance" - incluíndo uma versão mais longa de "Blackwater Park" do álbum homónimo, pode dizer-se que é um bom sumário também da carreira de Lindgren com a banda. E também pelo mesmo motivo, uma excelente introdução à banda para quem gosta de metal progressivo e ainda, por qualquer motivo, não conhece Opeth.
Já agora, graças ao sítio do costume, aqui fica um sneak peak.
Em Contagem Decrescente
Da minha parte, espero ansiosamente e com o dinheiro na mão (há coisas que simplesmente não basta descarregar) pelos próximos trabalhos das seguintes bandas...
Isis[ Isis MySpace ]
[ Mastodon MySpace ]
Se aqui está frio, imagine-se na Escandinávia. A verdade é que isso nunca impediu - pelo contrário, provavelmente ajuda - a que venha tanta coisa boa de lá, sobretudo a nível musical e em particular no que de alguma forma diz respeito ao metal. Por coincidência sem editar um disco de originais também desde 2006, os Katatonia preparam-se finalmente para lançar o sucessor do brilhante "The Great Cold Distance", tão brilhante que até provocou na banda um bloqueio na procura de como ultrapassar esse marco, facto humildemente assumido pelos próprios no seu site oficial. Se o próximo álbum estiver ao nível dos anteriores, já me deixaria bastante satisfeito mas estou certo que destes indíviduos pode-se sempre ainda um pouquinho mais, bem à imagem dos amigos e conterrâneos Opeth.
[ Katatonia MySpace ]
Prevê-se aí um 2009 musicalmente fortíssimo. Mais sintomas da crise, I guess...




