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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Surrogates

imdb

Ano de produção: 2009

Realizador: Jonathan Mostow

Elenco: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike, James Cromwell

surrogates-poster

Baseado na BD homónima, a qual devo confessar que não li e não conhecia, Surrogates é um filme de ficção científica sobre um futuro bastante provável – aquele em que deixamos de sair à rua para deixar que perfeitos e indestrutíveis robots façam o nosso trabalho “sujo”: viver. A ideia é simples. Cada um de nós teria um surrogate (substituto), que assumiria a nossa vida, controlado pelas nossas ondas cerebrais – nós seriamos o seu cérebro, sem sair de casa. Este surrogate faz tudo por nós: está suceptível a doenças, acidentes, emoções fortes, é o saco de pancada do patrão, etc. E nós passamos a vida de pijama e robe, comendo e engordando sem por um segundo pensar em ir ao ginásio, porque afinal o mundo conhece-nos pelo nosso robot: aquele perfeito ser de plástico que não precisa de lipoaspirações nem de correr na passadeira durante dez minutos por dia. E melhor. Acabaram-se as operações de transgender. Ninguém é obrigado a ser, no mundo, o que é no conforto do seu lar. Acabaram-se as tomas de hormonas e os cirurgiões plásticos (duas indústrias que concerteza seriam extintas: a farmácia e a cirurgia plástica).

Bruce Willis protagoniza este filme que levanta uma série de questões éticas e morais. É verdade que o tema não é completamente novo – vivemos com filmes sobre cyborgs desde que nascemos, especialmente a geração de 80, mas digamos que este argumento é um concentrado de todas as problemáticas. Não sendo uma narrativa-exemplar, por lhe faltar emoção e acção à trama, é interessante do ponto de vista académico. Ter um surrogate é bastante cómodo, a todos os níveis – até porque, sendo indestrutível, nós podemos saltar de prédios e levar com um carro em cima sem ir parar ao hospital, o que concerteza dará uma sensação de poder incrível. Por outro lado, e porque não há bela nem senão, é óbvio que esta comodidade se tornaria um vício. O ideal seria usar o substituto para as partes mais ingratas da vida, mas continuar a frui-la da melhor maneira. Afinal, que melhor que ter um clone pelas ruas enquanto nós, no conforto do nosso lar, podemos ser saudáveis e felizes sem preocupações? O problema é que ninguém pensou nisso. O problema é que toda a gente se habituou a que a máquina fizesse tudo, incluindo viver as suas relações amorosas. Bruce Willis personaliza este problema. Ele e a mulher perderam o filho num acidente, numa era pré-surrogates. Desde então, perderam toda a vontade de enfrentar o mundo, e adoraram os surrogates porque, afinal, se tivessem tido um antes do acidente, o seu filho ainda estaria vivo. Mas o que aconteceu à crónica insatisfação do homem? O que aconteceu ao que nos torna humanos – seres sedentos de emoções novas, novos desafios, o que nos testa e torna melhores? Os surrogates só deixam lugar à apatia, alienação, ao descuido do corpo e ao menosprezo do eu. Se existe outro melhor que eu, que se faz passar por mim, porque irei lutar?

Eis então que o próprio fundador dos surrogates percebe o erro que cometeu, e tenta reverter a situação. Canter (James Cromwell), queria dar voz aos incapacitados, eliminar as diferenças e discriminações sociais, não tornar o mundo numa massa amorfe e esquecida de viver. Mas será que é possível voltar ao passado depois de viver um futuro tão cómodo?

Veredicto: 5/10 (Não dou mais porque a acção deixa a desejar)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Kylesa - Static Tensions

Kylesa
Static Tensions
[prosthetic records 2009]
[ MySpace ]

Devem meter qualquer coisa na água para os lados da Georgia, USA, porque pelos vistos as bandas de lá são assim a puxar para o muito boas. Mastodon e Baroness já eram para mim referências incontornáveis do metal moderno, mas com Static Tensions os Kylesa completam como que uma santíssima trindade daquele estado norte-americano.

E não é por isso de estranhar o artwork, que quem anda nisto há uns tempos identifica facilmente como sendo da autoria de John Dyer Baizley, guitarrista/vocalista dos ditos Baroness, conterrâneos de Savannah. Essa qualidade tem continuidade na própria música, pois os Kylesa estão a ganhar calo e Static Tensions é um álbum na verdadeira acepção da palavra, composto por duas mãos cheias de canções cuidadosamente criadas, trabalhadas e exaltadas por uma produção absolutamente cristalina, especialmente no que toca ao som das duas baterias.

Duas baterias?!

Pois, é que os Kylesa, desde Time Will Fuse Its Worth, de 2006, que apresentam dois bateristas. Ora, juntando esse pormenor de somenos ao facto de haver também dois vocalistas (Laura Pleasants e Phillip Cope), temos aqui potencial ou para uma grande trapalhada ou para algo especial. Se no álbum anterior a fórmula ainda não tinha sido bem afinada, agora a máquina dos Kylesa está oleada e bomba a todo o vapor. O resultado é conflito: os vocalistas degladiam-se entre si e o mesmo acontece entre os bateristas, mas em prol da música e de uma maneira que resulta sobremaneira.

No que às baterias diz respeito, a produção é um aliado de peso, pois a distinção entre ambas faz-se estando uma totalmente à direita no stereo e a outra totalmente à esquerda - daí que um bom sistema de som ou uns headphones sejam recomendados para admirar este álbum a sério. O groove é incessante mas há momentos de elevação rítmica como é o caso de "Said and Done" ou "Running Red" - esta última com um riff e uma melodia vocal que a faz aspirar a épico. Enquanto uma das baterias mantém um ritmo normal, a outra mantém ora um blast beat (no primeiro caso) ora um groove tribal (no segundo). Ficamos ao mesmo tempo divididos e deliciados com as possibilidades.

Já nas vozes, Phillip Cope aprimorou o seu berro mas para mim é Laura Pleasants que brilha a grande altura, num timbre spaced out, muito psicadélico, a fazer lembrar bastante Lori S. dos Acid King. A dualidade entre as vozes é quase perfeita, a agressividade de Cope e a beleza etérea de Pleasants. Mais uma de muitas razões para curtir um álbum que é daquelas amostras perfeitas do que pode sair de um caldeirão de influências díspares em mentes inovadoras e sem medo de experimentar.

Andei vidrado bastante tempo no Red Album dos Baroness e tanto assim foi que acabei por cansar. Kylesa é a lufada de ar fresco dos lados de Savannah que estava a precisar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mastodon - Crack The Skye (2009)

Mastodon
Crack The Skye
[reprise 2009]

Ora aqui está um bom exemplo de uma banda que, ao contrário de 98% das bandas Portuguesas, não anda a fazer sempre o mesmo álbum.

Os Mastodon parecem estar-se nas tintas para o que pensam deles. Primeiro é a sujidade e a destruição, depois é o tributo a Melville e à sua Moby Dick, até que por alturas de Blood Mountain começou a perceber-se que estes meninos não tinham problemas em complicar à sua maneira. Mergulham no que convencionamos aqui chamar de progressivo, já não só a nível lírico, como também a nível musical. A questão é que é preciso ter unhas para isto tudo. E eles têm!

Os indícios estavam lá e Crack The Skye é para mim a total afirmação e confirmação dos Mastodon como uma das bandas mais originais dos últimos anos, com um percurso, se formos a ver, assustadoramente semelhante aos Metallica (com quem curiosamente partilharão este ano o palco em algumas ocasiões, incluíndo no Optimus Alive):

Remission ~ Kill 'em All
Leviathan ~ Ride The Lightning
Blood Mountain ~ Master of Puppets
Crack The Skye ~ ...And Justice For All

Quem conhece bem as discografias de ambas as bandas, vê que esta perspectiva não é assim tão descabida - façamos figas para que não haja uma fase Load/Reload.

Crack The Skye
é um álbum que merece várias audições com uns bons headphones para apreciar a magnitude da tarefa a que se propôs a banda. Há muita coisa a acontecer aqui, desde canções mais imediatas e surpreendentemente mais longe do metal que o habitual, com uma sensibilidade quase pop, até dois épicos cada um com mais de dez minutos onde tudo acontece com uma classe e cadência impressionantes. Mas não se pense que o peso desapareceu. Está apenas, como no caso dos Isis, cada vez mais requintado.

Talvez o que capte logo mais a atenção é a exploração vocal que os Mastodon decidiram fazer. Agora até o baterista Brann Dailor empresta a sua voz, curiosamente logo a primeira que se ouve durante vários versos no tema de abertura, "Oblivion". E ao longo dos 50 e tal minutos de duração, dei por mim muitas vezes a notar o quão original esta e aquela e a outra parte realmente eram, seja um lick de guitarra que vai e vem, seja uns metais lá ao fundo, seja o jogo entre ambiente e ritmo bombástico.

Ao princípio estranha-se, depois entranha-se. E de que maneira. É um álbum que cresce repetidamente a cada audição e não tenham a mínima dúvida: estará no topo de muitas e muitas listas no final do ano. Cheira-me é que o próximo, seja lá quando for, vai trazer o peso todo de volta. With a vendetta.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Isis - Wavering Radiant (2009)

Isis
Wavering Radiant
[ipecac 2009]

Os Isis seguem a toada do anterior In The Absence of Truth mas este Wavering Radiant causou-me melhores primeiras impressões do que o seu predecessor. As comparações, até com o seu próprio repertório, são no entanto injustas. É que chegados a 2009, esta é uma banda absolutamente tranquila, confiante, sem pressas e isso nota-se em Wavering Radiant, verdadeiramente um álbum mais que uma colecção de canções separadas.

Não está aqui uma nova sonoridade, não há caminhos novos a serem trilhados, coisa que os Isis já fizeram em boa medida no passado. Para quem gosta, este novo registo tudo tem para agradar, a não ser que estejamos à procura da parede de som sujo e distorcido de Oceanic para trás. Aí não há nada a fazer, pois Aaron Turner e amigos já não estão muito para aí virados, não obstante os momentos de peso cataclísmico que existem neste disco em doses requintadas. É que se a ideia é essa, então andam aí bandas bem mais indicadas neste momento.

As bandas realmente originais, aquelas que procuram o seu som e não se ficam pelo regurgitar incessante das suas próprias influências, têm tendência a reinventar-se periodicamente. Em casos extremos (e.g. Boris) cada álbum é um som novo, num estilo completamente diferente e mesmo antagónico do anterior. Noutras, por natureza mais calculistas mas não menos experimentalistas e destemidas, nota-se uma evolução ao longo de uma série de álbums até que a fórmula cristaliza e a banda produz um álbum que enuncia perfeitamente, com conta, peso e medida, todas as regras dessa dita fórmula. Wavering Radiant parece ser esse álbum para os Isis, como um bom vinho que estagiou o tempo certo, nas pipas certas e por fim é aberto à mesa sem esquecer a prévia decantação. Tudo pela mão de quem sabe. Assim, não me surpreenderia se o próximo álbum iniciasse outro ciclo. Até lá, é degustar este.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Valquíria

Realizado por: Bryan Singer
Com: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy
imdb



A primeira coisa que me veio à cabeça quando vi o nome de Bryan Singer associado a Valquíria foi: "o realizador de X-Men e de Superman Returns num filme histórico? Vai dar asneira". Ainda por cima não gostei particularmente de nenhum dos filmes - já é sobejamente conhecida a minha implicância com adaptações de bandas-desenhadas.

Apesar da primeira hesitação devido ao realizador, o trailer e a história original conquistaram-me. Os dois minutos de antevisão do filme fizeram-me pensar que era um daqueles filmes históricos sem tempo para respirar, pleno de personalidades fortes e inspiradoras. Não me enganei. A história falava da coragem da resistência alemã, de uma minoria não-cega pelas ambições sem escrúpulos de Hitler, um punhado de homens decididos a mudar os títulos das páginas dos livros de História, onde um dia ser leria "A Alemanha de Hitler". Senti que seria o típico filme histórico que arrebata e inspira. Mais uma vez, não me enganei.

No entanto, duas horas depois no Cinemax do Beloura, não me senti arrebatada pelo filme de Bryan Singer. Qual foi o problema? A minha mania de "fazer os trabalhos de casa", motivada também pela pessoa que foi comigo ver o filme. "Canal História, já!", lia-se na mensagem que recebi uns dias antes da estreia. Estava a dar um programa do canal História, que contava em pormenor a operação Valquíria. Ver o programa estragou o factor surpresa do recheio do filme. Já sabia que a operação para matar Hitler não tinha resultado, ou a História teria sido diferente, mas não sabia como tinha sido planeada, por quem, como, porquê. Claro que o canal História contou tudo e deitou todo o trabalho de Singer por terra.

De qualquer modo, não pude deixar de apreciar a interpretação de Tom Cruise como Coronel Claus von Stauffenberg, determinado e eloquente, que se anulou para ser em cada nervo do seu corpo o temerário militar. Mais que gravado na minha memória está o momento em que Stauffenberg levanta o coto, resultado de um incidente na Tunísia, para fazer "Heil, Hitler", numa clara e enraivecida prova de aversão ao Führer.

Um bom filme para lembrar que Alemanha não é sinónimo de Hitler.

Veredicto: 6/10

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

2 em 1



A contagem descrescente para a noite dos Óscares - e simultâneamente para os comentários rabugentos do Pedro acerca da Academia - continua e como ainda estou longe de ter visto todos os principais nomeados, hoje foi dia de apreciar mais dois potenciais galardoados no próximo dia 22 (não nos esquecemos do prometido: vai haver festividades e novidades muito em breve!).

"The Wrestler" é o regresso de Darren Aronofsky depois do ligeiro flop com "The Fountain" e também, há que dizê-lo, o regresso de Mickey Rourke, quiçá para o papel da sua carreira. Como disse um grande amigo meu, "o The Wrestler é tipo um Rocky não romantizado" e não podia concordar mais com ele. Gostei da forma crua e suponho que extremamente realista como Aronofsky nos mostra o circuito independente do Wrestling americano, longe da ribalta da WWF. Mas tal como "Rocky" está longe de ser um filme de porrada (os detractores da saga que se cheguem à frente, por favor), também "The Wrestler" não o é, antes sendo uma grande dose de realidade, de um pai que recuperou o amor perdido da filha para logo a seguir o voltar a perder, de alguém que nunca foi realmente amado e que procura numa stripper o afecto que ela não quer ou não pode dar. Seguir os altos e baixos de Randy nunca enfastia e deixa-nos no final com uma sensação agridoce. Nem vou comentar as aparições da Marisa Tomei. É que nem comento.

Já "Doubt" é um autêntico filmaço, com interpretações do melhor que se fez este ano. Phillip Seymour Hoffman continua a coleccionar papéis geniais uns atrás dos outros e diga-se, em abono da verdade, que poucos além dele conseguiriam estar ao nível da Meryl Streep que aqui vemos. Um representa a dúvida, a outra a convicção, um eterno duelo entre o novo e o velho. Este é um filme que, quanto mais não fosse, nos relembra que a Fé, seja ela em que for, existe não em contraponto com a certeza mas sim com a dúvida. Basta acompanhar os 100 minutos deste drama do mais alto calibre para perceber que são da mais elementar justiça as nomeações de Hoffman, Streep, Amy Adams e sobretudo de Viola Davis - que aparece durante 10 minutos mas protagoniza, num diálogo com Meryl Streep, os melhores 10 minutos de filme que vi neste último ano.

Numa era em que é chic dizer mal dos Óscares, prefiro relativizar a sua importância ao mesmo tempo que congratulo a Academia por dar o devido relevo a este filme através de 5 nomeações, mesmo lamentando não o ver pelo menos nomeado para a categoria de Melhor Filme. A verdade é que nenhum dos nomeados para essa categoria desmerece certamente a distinção.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sicko (2007)

Realizado Por: Michael Moore
IMDb


Michael Moore é das mais conhecidas vozes dissidentes da América, muito por culpa da exposição que tem tido através dos seus vários documentários. Normalmente obcecado por mostrar aos mundo os horrores perpetrados pela administração Bush (Fahrenheit 9/11) ou dos norte-americanos contra si próprios (Bowling For Columbine), em "Sicko" Moore faz uma incursão pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, onde reinam as seguradoras e onde o lucro é suficientemente importante para justificar que ande a morrer gente sem necessidade.

Há algo comum em todos os documentários deste estilo onde a ideia é chocar-nos, mexer com os nossos sentimentos, surpreender-nos e se possível fazer-nos revoltar. Ou qualquer combinação destes. O grande problema de inúmeros activistas, embora bem intencionados, acaba muitas vezes por ser o extremismo, uma certa cegueira pelas ideias que ardentemente defendem e cujo tiro acaba por sair pela culatra. O mundo está cheio de exemplos destes, onde boas ideias acabam por terra exclusivamente por falta de bom senso.

Moore não se enquadra propriamente nesta descrição mas os seus documentários têm a tendência para me deixar de pé atrás pela maneira americana que usa para criticar a... maneira americana. Embora adopte à primeira vista uma atitude de investigação imparcial, Moore é demasiado sensacionalista na forma como nos mostra o resultado das suas diligências, mesmo compreendendo que o objectivo é chocar e mobilizar.

Há factos inegáveis em "Sicko", provavelmente a esmagadora maioria deles e claramente são suficientes para nos sensibilizar e nos fazer crer que algo está muito podre no reino da América. No entanto, da mesma forma que nos anúncios de produtos de beleza em que vemos um "Antes" e um "Depois" o antes é particularmente desleixado e o depois é particularmente cuidado, também "Sicko" sofre dessa assimetria na forma como pinta a América como um matadouro e basicamente o resto do mundo como um paraíso onde tudo é a borla e qualquer um, com uma mão no bolso, tem pelo menos 3 LCDs em casa e 2 BMWs à porta. Para quem vive fora da América, pelo menos, acreditar piamente nos factos de Moore é quase uma questão de fé. Da América apenas o mau é mostrado, do resto do mundo apenas o bom.

Não deixa de ser curioso como a digressão mundial pelas várias realidades que o realizador nos apresenta termina precisamente em Cuba. Não obstante a estupidez néscia e inútil que é ter levado consigo um grupo de voluntários do 11 de Setembro gravemente doentes para serem tratados na base de Guantánamo (!) - que obviamente não funcionou - a passagem por Cuba propriamente dita é interessante até porque é do domínio público a categoria dos cuidados de saúde em terras de Fidel.

Que as coisas na América levam caminhos misteriosos, já todos sabíamos. Mas não nos queiram fazer crer que tudo são rosas nos outros lugares. "Sicko" é um bom documentário e sobretudo tecnicamente bem executado, como é apanágio de Michael Moore. Sofre apenas de um astigmatismo que incomoda e que acaba por funcionar um pouco contra a própria mensagem.

E agora que Bush está fora de cena - ou mais ou menos isso - será que Obama vai levar Moore ao desemprego?

Veredicto: 6,5/10

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

The Man From Earth (2007)

Realizado por: Richard Schenkman
Com: David Lee Smith, Tony Todd, John Billingsley, Ellen Crawford
IMDb

Assumindo de antemão um desconhecimento quase total em relação a Jerome Bixby, vale a pena explorar brevemente a importância deste escritor no panorama da ficção científica na última metade do século passado. Apesar de uma bibliografia reduzida, Bixby escreveu o argumento original de It! The Terror from Beyond Space - que haveria de servir mais tarde de inspiração para o "Alien" de 1979. Além disso, teve um contributo importante em Star Trek, nomeadamente com a criação do conceito de "Mirror Universe", em 1967. De maior relevância para o assunto que nos traz aqui hoje é "Requiem for Methuselah", um episódio também do Star Trek, que Bixby imaginou e escreveu.

É o desafio perpétuo de qualquer crítico de cinema - sei que o é para mim, mesmo não sendo um crítico per se - escrever sobre um filme sem beliscar minimamente a experiência de quem ainda não o viu. Diria que não é possível, sobretudo em certos filmes que dependem da surpresa. "The Man From Earth" não é propriamente um episódio de "24", em que cada detalhe é um twist que só visto - lembro-me que às tantas já não conseguíamos discutir a série entre amigos. Mas é tão bom e toma proporções tais que qualquer espectador merece entrar nesta estória completamente a frio. Ou seja, vejam o filme, se ainda não o fizeram e depois, por que não retomar o discurso deste vosso humilde escriba?

...

Fazer um filme com meia dúzia de actores, um par de cenários e muita conversa é especialmente simpático para o produtor. No caso de obras como por exemplo "Cube" ou a parte central "Saw", é óptimo também para quem assiste pois, da mesma forma que muitas vezes os jogos mais simples são os mais viciantes, também um filme despido de adereços e fortemente baseado no diálogo pode ser extremamente cativante. É o que se passa com "The Man From Earth", um filme que começa com o pretexto de uma festa de despedida ad-hoc do Professor John Oldman e resulta porque as razões dessa despedida e o próprio passado de Oldman - e que passado - são absolutamente fascinantes.

Esse fascínio é muito semelhante àquele que sentimos quando estamos à volta de uma lareira a ouvir uma excelente estória de quem já viveu muitos anos e tem muito para contar. Bixby, ao criar Oldman incutiu-lhe essa estória e Richard Schenkman, enquanto realizador, deu-lhe as condições para que funcionasse no ecrã. Passamos quase hora e meia a ouvir fascinados episódio atrás de episódio de algo que toma proporções bíblicas. Literalmente.


"The Man From Earth" é um bom teste à nossa credulidade, até que ponto acreditamos no que nos dizem e até que ponto é possível abalarem as bases das nossas convicções. Por outro lado, é apenas uma óptima estória de ficção científica, especialmente para aqueles a quem o termo repele - não há aqui naves espaciais, nem homenzinhos verdes. Há apenas e só uma bela ideia para um argumento, que naturalmente não pede licença para esticar o que entendemos por plausível - interpretada de forma magnífica por um punhado de actores desconhecidos. David Lee Smith é especialmente cativante no principal papel, num ambiente que faz lembrar de certa forma "Twin Peaks". Aliás tudo neste filme cheira a indie. No bom sentido.

Apenas uma reclamação. Mesmo no final, Schenkman tem a oportunidade de nos deixar ir embora na dúvida, aliás como todos os colegas de Oldman que ouviram a estória. Não sei como é o argumento original de Bixby - completado em 1998, pouco antes de morrer - mas o realizador optou por nos dar a verdade à colher. Às vezes é melhor sabermos menos e imaginarmos mais.

Veredicto: 7/10

Sete mortes, sete vidas

Seven Pounds
Realizado por: Gabriele Muccino
Com: Will Smith, Rosario Dawson, Michael Ealy


[SPOILERS]

Sete vidas é um filme interessante apesar de ter uma história muito mais interessante do que o filme. Um homem provoca um acidente onde morrem sete pessoas; a partir desse dia a sua vida resume-se a salvar sete vidas, como forma de reparar o dano causado. Para salvar a última pessoa comete o sacrifício final de dar a sua própria vida.

Notas:
- O filme começa com uma parte da sequência final. Começar com o fim é um recurso gasto e é preciso alguam habilidade para o usar, sob pena de se ficar com uma espécie de teaser promocional agarrado ao início do filme que no todo fica apenas como apêndice desnecessário.
- Will Smith talvez não seja o actor indicado para o papel principal de 7 Pounds, falta alguém com um ar mais respeitável (e que não tenha feito três filmes por ano nos últimos anos).
- Rosario Dawson está perfeita naquele papel, ficarei atento aos próximos trabalhos da senhora que já tinha aparecido com ar de má em Sin City.

O que mais me irrita é mesmo o facto de uma história tão interessante e que até está bem executada em filme (a história flui bem, o filme tem o tempo certo se excluírmos o intervalo da Lusomundo, a fotografia é interessante, a personagem secundária é interessante, etc...) acabar por sair prejudicada em 7 Pounds.

Ponho a culpa em Will Smith mas também nas escolhas que levam a explorar demais o amor entre Ben e Emily. Na verdade o tema principal não é este amor, que é comum e banal, é sim a dedicação e esforço de Ben em reparar a fatalidade que inadvertidamente causou. Isto merecia ser melhor explorado - o sentimento de culpa, a vontade de reparar o dano causado, o altruísmo até para desconhecidos e, em suma, o poder semi-divino que Ben tem de salvar sete vidas.

Há sete pessoas salvas, há um homem que se sacrifica para salvar sete vidas e no fim temos de aturar meio filme a ver uma relação do género "as palavras que nunca te direi"... Seria interessante ver o que outro realizador faria com este argumento.

Veredicto: 6/10

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Second Life (2009)

Realizado por: Alexandre Valente e Miguel Gaudêncio
Com: Piotr Adamczyk, Lúcia Moniz, Cláudia Vieira
IMDb

Poster
Depois de Corrupção e O Crime do Padre Amaro se terem tornado êxitos de bilheteira, o produtor Alexandre Valente (que entrou para a História do Cinema Português por ter estreado Corrupção à revelia do realizador, que retirou a sua assinatura do projecto), acreditou ter encontrado a receita do sucesso e especialmente, uma maneira de levar o público português a pagar pelo Cinema português: mulheres nuas e sexo. Quando concebeu Second Life, pensou que as cenas íntimas entre Liliana Santos e Sandra Cóias bastariam para vender o filme ao "grande público" (que insulta por tratá-lo como um devorador de cenas porno) e torná-lo "o melhor do ano". Como bem afirmou João Lopes em Sound+Vision, um filme não se mede pela quantidade de pessoas que leva ao Cinema, ou melhor, isso não deve ser razão para dizer que um filme é bom. Vejamos por exemplo, o Mamma Mia!, que foi o filme mais visto em Portugal em 2008, e salvo erro o DVD mais comprado na Grã-Bretanha. É um bom filme? Não, está mal realizado, as câmaras parecem andar loucas à procura da frenética Meryl Streep que canta e dança por cada canto da sua ilha grega. É um fun movie que leva toda a gente ao Cinema, como a Rita Guerra e o Tony Carreira figuram nos Tops Fnac - não são bons, mas por alguma razão, há quem goste.

Alexandre Valente afirmou, prepontente, que Second Life é o melhor filme português até agora realizado e que iria revolucionar o Cinema do nosso país. Claro que me deu vontade de rir quando ouvi isto, porque pelo trailer e pelo historial do realizador, já imaginava que não ia sair grande coisa. Mais tarde, 82 penosos minutos depois (pareceu longo apesar de curto), as minhas suspeitas confirmaram-se. Além de não existir qualquer química entre os actores, que representam o grupo de amigos mais desinteressados e pouco à-vontade de sempre, os diálogos são tão ridículos e pobres que parecem ter sido escritos por uma criança de 14 anos. Contexto: o filme passa-se durante uma festa de aniversário no Algarve, em que o anfitrião (o polaco Piotr Adamczyk) é encontrado morto na piscina e se torna a voz-off do filme, passando em revista a sua vida nos últimos anos e as escolhas que podia ter feito e que podiam ter evitado este destino. Entretanto, vamos descobrindo traições e mentiras dos seus amigos em relação a si, mas nada de muito elaborado - o enredo tão simples e previsível que insulta o espectador mais básico.

second life

Há momentos em que dá vontade de bater com a cabeça nas cadeiras de tão estúpidos que são os diálogos, como na cena em que o polícia (Pepê Rapazote) chega à quinta do protagonista e vê o sujeito a flutuar na piscina. "Então, não tiraram o homem da piscina?", pergunta. "Está morto!", responde um pouco convicente Pedro Lima. "Bem, se não estava, agora está mesmo!". Toda a sala explodiu em riso nesta cena, não pela tentativa de piada, mas pelo ridículo.

Pergunto-me agora se Alexandre Valente não aprendeu nada com Manhã Submersa, de Lauro António, ou Alice, de Marco Martins, exemplos de que o Cinema português é bom e pode ter sucesso junto ao público. Parece que Alexandre Valente só está interessado em fazer dinheiro da maneira mais fácil e triste possível. Será que ele acredita que Second Life é mesmo um bom filme ou está a gozar com o público português?

Veredicto: 1/10

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Son of Rambow (2007)

Realizado Por: Garth Jennings.
Com: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes.
IMDb

Estreou em Portugal no Festival de Cinema Independente de Lisboa'08, integrado no programa Indie Júnior, uma inovação do certame. Pelo seu horário de exibição, às 10h, não vi, na altura do festival, aquele que considerei uma das grandes apostas do evento. De facto, Son of Rambow acabou por receber o Prémio do Público Indie Júnior. É fácil perceber porquê.

Filho Rambow 

Na Grã-Bretanha dos anos 80, uma pequena comunidade de uma vila rural resistia à metamorfose da sociedade para os novos cânones da modernidade entre as paredes de uma igreja protestante, que proibia os seus crentes de ver televisão e classificava como pecaminosos todos os avanços da tecnologia. Para aquelas mulheres de lenço na cabeça e homens de olhar austero, que tiravam o relógio antes de cada cerimónia religiosa, o mundo cingia-se a Deus e nada mais que a Deus. Fechado naquela comunidade de género Amish, Will Proudfoot refugiava-se num caderno onde pintava histórias de heróis aventureiros inventados por si, e fazia correr ao cantinho da página personagens animados - o princípio do Cinema, dar movimento a imagens paradas. Mas Will não conhecia o Cinema.



Incentivado pelo rufia da escola, Lee Carter, Will conheceu o Cinema a partir de algumas cenas de um filme de Rambo. Will identificou imediatamente os heróis que desenhava no caderno com as aventuras do intrépido soldado norte-americano e concordou com Lee em ser o protagonista dos seus trash movies, inspirados na personagem de Sylvester Stallone.


É assim que começa uma verdadeira ode à amizade e ao Cinema como o imaginamos desde pequenos: uma aventura que apenas depende de uma câmara de filmar, actores destemidos e algumas engenhocas. Somos completamente contagiados pelo entusiasmo de Will e Lee, que estão decididos a ganhar um concurso para jovens cineastas. De facto, Garth Jennings não podia ter encontrado melhor forma de nos puxar para dentro do filme, já que a modesta vila que serve de cenário, as calças apertadas em baixo, o ar de punk dos anos 80 de Didier, um estudante francês, e o deslumbre pelo despontar da tecnologia são o espelho da nossa infância. Saímos do filme com vontade de ser crianças outra vez, de acreditar em tudo com a mesma ingenuidade e sede de devorar o mundo como outrora.

Veredicto: 7/10

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Slumdog Millionaire (2008)

Realizado Por: Danny Boyle
Com: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Freida Pinto
IMDb

Danny Boyle era até agora conhecido sobretudo por ser o realizador do seminal Trainspotting - e, em menor escala, pelo interessante 28 Days Later - mas isso agora acabou. Slumdog Millionaire passa a ser uma referência no currículo deste britânico de 51 anos, película já galardoada com o Globo de Ouro para o Melhor Filme Dramático do ano e certamente com lugar reservado em várias categorias da cerimónia dos Óscares que se aproxima.

Há três coisas particularmente interessantes em Slumdog Millionaire. A primeira prende-se com o retrato de uma Índia que nem sempre nos é dado a conhecer, muito mais próxima da favela brasileira. É neste panorama - onde notavelmente todos parecem estar contentes no seu quotidiano, sobretudo as crianças - que os irmãos Jamal e Salim crescem e se desunham por sobreviver apoiados nos seus instintos e na sua argúcia.

O segundo aspecto notável é como Boyle consegue transpôr para este filme o ambiente frenético e o ritmo acelerado de Trainspotting. Que o estilo funciona também aqui é não só um atestado da qualidade de Boyle e da montagem do novato Chris Dickens, mas também algo que acaba por ser um dos trunfos de Slumdog Millionaire ao longo das suas duas horas. E já que se fala de montagem, começa a tornar-se lugar comum hoje em dia andar com analepses e prolepses. O sucesso da escolha por esse estilo acaba por ser se o filme beneficia disso, ou não, e definitivamente Slumdog Millionaire não só beneficia como me arriscaria a dizer que não podia passar sem isso. Pelo menos, estaria mais longe do grande filme que é.


Finalmente, e correndo o risco de reduzir um pouco a experiência de quem ainda não teve oportunidade de ver o filme (leia-se spoilers), o terceiro aspecto é como Boyle disfarça o que na realidade é uma estória de amor, e bem bonita enquanto tal. Estórias destas já têm barbas no grande ecrã, mas funcionam sempre se as personagens nos interessarem, se nos preocuparmos com elas. Aqui, Jamal e Salim são tudo menos planos e o percurso deles é apaixonante, fazendo com que nos colemos ao ecrã a seguir as suas aventuras.


Que toda a publicidade à volta do filme aponte para o facto de Jamal ser um concorrente da versão indiana do "Quem Quer Ser Milionário?" que sabe a resposta a todas as perguntas, embora verdade, é apenas mais um brilhante truque de ilusionismo.

O porquê de Jamal saber as respostas é que é a alma de Slumdog Millionaire e o seu verdadeiro toque de magia.

Veredicto: 8/10

sábado, 17 de janeiro de 2009

Gran Torino (2008)

Realizado por: Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood, Cristopher Carley, Bee Vang, Ahney Her
IMDb

É admirável que o actor que muitos de nós instantaneamente associam com o loirinho sem nome de Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo leve já 53 anos de carreira como actor, os últimos 37 dos quais também como realizador e que resultaram em dois Óscares para Melhor Realizador e Melhor Filme (Unforgiven e Million Dollar Baby) sem esquecer outras tantas nomeações nas mesmas categorias (Mystic River e Letters From Iwo Jima). Eastwood é um daqueles senhores incontornáveis do cinema contemporâneo, cujos filmes privilegiam a estória em detrimento dos adornos, a substância em desfavor do estilo, muito na linha de algumas referências orientais, lembrando-me de repente de alguns filmes de Takeshi Kitano como Brother ou Hana-Bi. Todos os movimentos são em prol da estória que Eastwood nos quer contar.

É também admirável que aos 79 anos de idade Eastwood volte a desempenhar funções de realizador, produtor e também de actor, 4 anos depois do brilhante Million Dollar Baby. Desta vez Eastwood é Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coreia, que fica viúvo imediatamente antes do início da estória que nos contam e cujo ódio e preconceito o levam a desprezar todos os que vivem à sua volta, incluíndo a sua própria família. A sua mais importante possessão, fruto dos anos que trabalhou numa fábrica da Ford, é um Gran Torino de 1972, que ele passa longos momentos a limpar e polir no jardim à frente da sua casa e no qual foi ele próprio, segundo conta, que montou a coluna da direcção.

Não é por isso de espantar que a sua atitude perante os seus vizinhos Hmong não seja propriamente a melhor. Na verdade, ele detesta-os, mais ainda quando um deles, o sossegado Thao, tenta roubar o seu Gran Torino. Quando Walt percebe que a mão de Thao foi forçada por um gang de asiáticos que o tentavam iniciar nas suas actividades, esse acaba por ser mais um elemento no processo de conversão de Walt, que começa a perceber que tem mais em comum com aquelas pessoas que moram ao lado do que inicialmente gostaria de admitir, algo que é acentuado a cada exemplo de egoísmo e materialismo da sua própria família.

Daqui para a frente não estarei a revelar nenhum segredo se disser que o objectivo de Walt passa a ser transformar Thao num homem à séria - pelo menos pelos seus padrões... - com capacidade de enfrentar os perigos da sua comunidade e defender-se a si próprio. A partir daqui, claro está, temos em mãos um conto clássico de como Walt abraçou estes Hmong e como estes o abraçaram a ele, contra todos os preconceitos e como os problemas deles passaram a ser também problemas dele.

Aborrecido? Nem por isso, porque Eastwood sabe realmente contar uma estória e Gran Torino não resulta num único momento de enfado. A resolução do filme é rápida e atípica e, não sendo incompreensível, tem o potencial para nos deixar um pouco frios. Talvez ajudado por isso, mentiria se dissesse que é um filme tão satisfatório como Million Dollar Baby ou Mystic River, apesar de partilhar alguns elementos de estilo com ambos. Na verdade, Gran Torino é mais uma pérola na forma de uma estória anti-racista que fica muitíssimo bem na folha de serviço de Eastwood.

Veredicto: 7,5/10

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Before The Devil Knows You're Dead (2007)

Haverá melhor maneira de começar um filme do que com a Marisa Tomei de quatro em cima de uma cama?

Claro que há - sobretudo se não estivesse a fazer o amor com o Philip Seymour Hoffman que tem tanto de genial actor como lhe falta de sex appeal. Mas não deixa de ser um início prometedor, antevendo que estamos, provavelmente, perante um daqueles filmes sem medo de ser atrevido, cru, provocador. Puro e duro. Oops, no pun intended.

15 minutes in heaven...


Agora que as atenções estão viradas para os Óscares, vale a pena revisitar um filme que lamentavelmente passou ao lado disso há um ano, mas que interessa conhecer e sobretudo viver. Sidney Lumet (Serpico, Dog Day Afternoon) traz-nos um épico retrato da vida real que nos deixa ao mesmo tempo desconfortáveis e fascinados. Um relembrar que por vezes o que parece ser inconsequente e inofensivo acaba por despoletar uma série de acontecimentos nefastos absolutamente devastadores e impossíveis de travar.

É difícil falar de "Before The Devil Knows You're Dead" sem desvendar muita da essência daquilo que nos faz vibrar com esta estória e nos deixa colados ao ecrã durante as duas horas que esta película dura. Se não viram este filme, também não vos vou revelar mais nada. Vale a pena embarcar nesta viagem a saber zero. Se já viram, então sabem do que eu estou a falar (já dizia o outro).

Mas ainda assim há tanto para elogiar. Os irmãos são Hank e Andy, interpretados por Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman, respectivamente. Marisa Tomei é a mulher no meio, amante de um e mulher do outro, mas este é um triângulo que de triângulo até tem pouco, pois o enfoque não é esse. Andy acaba por saber de viva voz que tem sido enganado durante muito tempo mas a verdade é que quando acaba por saber, esse já é o menor dos problemas de ambos os irmãos.

Além das doses massivas de realismo, é inteligente a forma anacronista a la "Pulp Fiction" como os acontecimentos se sucedem. Ao mostrar-nos a mesma cena mais do que uma vez, com enquadramentos diferentes, estando mais informados que da última vez, Lumet consegue prender-nos ainda mais. O tom do filme é melodramático do princípio ao fim e o score de Carter Burwell é magnífico na forma como nunca se mete no caminho limitando-se a sublinhar o drama. Nada é apressado.

"Before The Devil Knows You're Dead" é um filme que merece ser visto, revisto, saboreado mas não há muito para discutir sobre ele para além da admiração das suas qualidades. É uma simples estória de um plano que correu mal e cujas consequências vão para além do pior pesadelo de todos os envolvidos. Hawke e Hoffman estão brilhantes no papel dos irmãos que vêem tudo desmoronar-se à sua volta e passam da confiança ao remorso total. Albert Finney faz de pai de ambos e tenho dificuldade de lembrar-me de um rosto mais crispado pela dor psicológica que o dele.

Como passou um filme destes completamente ao lado do buzz dos Óscares é algo que me intriga mas que constituiu, a meu ver, uma discussão perfeitamente irrelevante. Sidney Lumet não tem a regularidade de um Scorsese ou de um Kubrick mas não deve, a espaços, em brilhantismo a qualquer deles. No entanto, e como afirma Roger Ebert, não deixa de ser bonito que um realizador que ganhou Óscar de Lifetime Achievement, realize três anos mais tarde um dos seus maiores feitos.

Veredicto: 9/10

A Troca (2008)



Entrei na sala sem grandes expectativas: esperava não mais do que um "Mighty Heart" passado nos anos 20. Saí da sala com algo que não esperava: "A Troca" é dos melhores filmes que vi em largos meses.


O filme destaca-se por vários motivos, que em conjunto fazem dele uma grande abertura para 2009. Clint Eastwood prova não só que está muito bem atrás das câmaras como também convence os mais cépticos (nunca me rendi totalmente ao Eastwood actor) de que tem muito para dar ao cinema.

Angelina Jolie está perfeita no papel que desempenha. A tendência para comparar esta Angelina com a de "Mighty Heart" (pessoas desaparecidas, mulher desesperada à procura, etc) é óbvia mas esta personagem, a meu ver tem lago mais. O desespero e raiva são mais contidos (aquelas palavras que quase não chegam a ser ditas na primeira chamada telefónica para a polícia são exemplo) mas a luta ultrapassa a mera busca por um ente querido. A luta de Christine é uma luta contra uma sociedade que embora esteja já no século XX funciona ainda como no século XIX. A luta de Christine Collins é ao mesmo tempo uma luta contra estereótipos, contra o protectorado hipócrita e paternalista que subjugava as mulheres (e que em muitos casos continua, mas isso é tema para outro post...), contra o poder desmedido, banhado em currupção e tráfico de influências (da polícia e do poder político), contra o desprezo para com as crianças, contra o tratamento dos menores como sendo adultos pequeninos, contra uma sociedade à beira de colapsar e renascer (com a crise de 1929 e a Guerra Mundial).

O facto de esta história se basear num caso real dá ainda mais força ao filme história. Como nos diz a PREMIERE & DVD de Janeiro: o peso do real choca o espectador porque tira a armadura de "isto é filme" que envolve grande parte das tragédias que vemos a 24hz no grande ecrã. Desprotegido, o espectador sente directamente o peso das emoções, a textura dos personagens, a densidade do enredo. É nestas alturas que um filme representado por actores pode provocar mais compaixão, mais reflexão, maior "dor de mundo" do que um telejornal, cuja imagem é "mais real", tirada dos factos.

[os parágrafos que se seguem, marcados a cor diferente, podem conter spoilers incómodos:]
E é por isto que quando o miúdo conta ao polícia que participou na morte de 20 crianças ficamos simplesmente vidrados numa tela branca. A pergunta (que fica sem resposta) é "porquê!?". Nesta altura o filme vira-se do avesso, todas emoções submersas emergem. (é também nesta altura que a Lusomundo mete o intervalo... tirando ao espectador a experiência que foi pensada e executada na mesa de montagem).
De qualquer das formas a actuação do míudo que desvenda os crimes na quinta canadiana é soberba, das melhores actuações de crianças que eu já vi no cinema (e eu até nem gosto de actuações de crianças). A montagem acentua a tensão num triângulo rapaz-detective-memórias.

De resto, em geral o filme apresenta uma montagem interessante, com lapsos temporais inteligentes (alguém marca número no telefone, no plano seguinte o telefone é pousado do outro lado - a conversa fica perdida no tempo próprio do filme mas não faz falta à história - um "faça você mesmo" interessante). Notei alguma falta de cuidado na montagem física (os cortes entre planos e algumas partes do som) que será certamente resolvida na edição de DVD.

Os cenários e o mis em scéne são muito cuidados, perto da perfeição. Além dos Thin Lizzy que enchem as ruas de Los Angeles há uma série de objectos, espaços e situações cuidadosamente retratados (de salientar a importância da rádio nos EUA dos anos 20 e a paranóia da catalogação das doenças e desvios mentais - curiosamente o criminoso não recebe nenhuma categoria).

Reparei que o filme tinha uma cor própria que se consegue não pelo uso de técnicas de edição especiais, não pelo uso de uma película específica mas pelos cenários, roupas, etc. Um táxi amarelo salta à vista nos tons suaves de castanhos, verdes, creme, etc. A cor e o ambiente ajudam imenso à imersão no já longínquo mundo da América às portas da crise. Acredito que a cor deste filme possa vir a ser um pormenor desprezado por muitos mas marcou-me bastante.

É sempre difícil usar termos como obra-prima, genialidade ou perfeição mas a verdade é que não notei a falta de nada nesta produção. Simples na aparência, tem grande complexidade e textura ao nível do psicológico e do social. Simples na edição, conta uma história de forma densa mas não exageradamente dramática. Simples nas tonalidades e cores, mostra uma grande confusão de gente, automóveis, máquinas. A central de telefones é como um micro-cosmos, uma maqueta da ruas confusas e entupidas... oops, análises psicológicas ficam para depois que esta conversa já vai longa.

Veredicto: 9/10

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Antevisão: O Estranho Caso de Benjamin Button

Da autoria de Francis Scott Fitzgerald, O Estranho Caso de Benjamin Button (1922) é mais que um romance, é um produto de uma época. Benjamin Button nasce "sob estranhas circunstâncias", como um bebé "enrugado", na noite do Armistício da Primeira Guerra Mundial, em 1918. A mãe morre ao seu nascimento, e o pai, assustado com a aparência do filho, deixa-o à porta de uma mulher negra que governa uma residência. Apesar da distância que se afirmava na altura entre brancos e negros, a mulher recebe aquele bebé estranho, que parece ter nascido com 80 anos. E antes de partirmos ao filme que David Fincher realizou a partir da obra de Fitzgerald, convém explicar a premissa deste texto. O Estranho Caso de Benjamin Button é um produto de uma época porque o protagonista, encantado pela possibilidade de rejuvenescer em vez de envelhecer, como os restantes, parte para a Marinha para descobrir o mundo e dedica a vida a aproveitar ao máximo cada dia, o que não é mais que a típica tendência de um pós-guerra - a imediata sede de viver depois das limitações que a guerra obrigou.
No fundo, o nascimento de um bebé com 80 anos no dia em que a Primeira Grande Guerra terminou, e a sua futura leviandade perante um futuro de todas as possibilidades é um retrato da Idade do Jazz nos Estados Unidos da América e uma metáfora sobre todos os fins de guerra. Benjamin Button nasce na idade da morte para a vida, tal como uma guerra termina para a sociedade renascer.

Apaixonado por projectos ambiciosos, David Fincher (Sete Pecados Mortais, Clube de Combate, Zodíaco), propôs-se a adaptar o complexo romance de Fitzgerald ao cinema, e para isso não podia ter convidado outra pessoa senão Brad Pitt, um Hércules da representação que deu aos seus filmes a intensidade necessária para torná-los verdadeiras obras-primas - especialmente como o psicótico Tyler Durden de Clube de Combate, que foi elegido recentemente como a Melhor Personagem de Cinema de Todos os Tempos, tendo até superado o Senhor do Mal, Darth Vader (Star Wars).

Fincher temeu o desafio que significa filmar uma pessoa durante toda a sua vida, neste caso, como aponta o Ipsilon, "desde a cova ao berço", e Pitt também se revelou preocupado com o resultado, mas a julgar pelo trailer, a adaptação parece ter sido bem conseguida, através de pequenos duplos que representaram um Pitt baixinho e enrugado, e uma boa dose de efeitos especiais, que tornaram o actor muito diferente do típico alto e musculado a que nos acostumámos.

Outra problemática explorada neste filme é a fugacidade do tempo, que não permite aos amantes vivenciarem-se e conhecerem-se ao mais profundo de si. Benjamin Button é apaixonado por Daisy Fuller desde a infância, mas existe um fosso etário gigante entre ambos, que os coloca em pontos extremos do tempo. Daisy é uma criança vivaz e Benjamin um pequeno velhote quando se conhecem. Daisy é mulher madura e Benjamin está no pico da sua juventude quando se voltam a encontrar. Encontros e desencontros amorosos acontecem em todo o lado e com toda a gente, mas este é um caso em que alguém ganha a vida que o outro perde, ano após ano, tornando as suas vidas completamente opostas.

Além de enfrentar o progressivo envelhecimento da mulher que ama, Benjamin tem de lidar com a morte das pessoas mais importantes para si, à medida que fica mais forte e que os seus horizontes se alargam em oportunidades. Afinal, as pessoas que o rodeiam não podem viver com ele as suas descobertas e emoções.

Em O Estranho Caso de Benjamin Button, o pós-guerra é o ponto de partida para uma história sobre o tempo e a fragilidade do amor e da vida humana. Estreia a 15 de Janeiro nas salas de cinema portuguesas.