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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Blast from the past: 1998

Em 1998 eu jogava Playstation e via MTV. Hoje a Playstation vai na terceira versão, o Gran Turismo tornou-se complicado demais, até para o Pedro Lamy, o FIFA foi substituído pelo PES e eu nunca me habituei às teclas e jogabilidade; e a MTV passou a ser eMpTy V, como cantava o poeta.

No entanto há coisas de 1998 que me foram acompanhando nos últimos 11 anos. Destaco aqui os álbuns desse ano que ainda duram.

Americana (The Offspring)
Americana marcou o ponto de viragem em que todos os álbuns de Offspring passaram a ser remakes e reprises do Americana. Sinal de que era bom. Punk Rock para as massas que eu ouvi até gastar o CD.



Devil without a cause (Kid Rock)
Um album genial. Especialmente "Cowboy" e "Only God knows why", que conta com uma utilização criativa do AutoTune (afinador de voz). Kid Rock com toda a atitude que faz dele Kid Rock. Considerado o 68º melhor album de sempre pelo Rock and Roll Hall of Fame.


Follow the leader (Korn)
Nu metal para revisitar de vez em quando. "Freak on a leash" e "Got the life" eram especialmente interessantes. Os Korn ainda haviam de fazer mais música interessante antes de se deixarem desvanecer no nevoeiro do tempo.



Garage, Inc (Metallica)
Uma colecção de covers gravada por uma banda de encher estádios. Depois de uma tour infinita de suporte aos duplo-album-que-nunca-chegou-a-ser Load e ReLoad a "maior banda de garagem do mundo", escrevia uma revista da altura, lança um albúm de covers (continuando em digressão) e faz acompanhar o novo CD de mais um disco com dois EPs há muito desaparecidos de circulação.

Inquisition Symphony (Apocalyptica)
Afinal era mais do que quatro maluquinhos a tocar Metallica com violoncelos do século XIX! O começo do corte do cordão umbilical: o quarteto de cordas foi-nos dando cada vez menos Metallica, ganhando personalidade e perdendo o impacto inicial.


Liquid Tension Experiment (LTE)
Um festival de música instrumental de qualidade inatingível. Para encantar os leigos e desanimar os músicos... De qualquer forma um excelente álbum. Receita: ouvir com o segundo album de LTE logo de seguida.



Mechanical Animals (Marylin Manson)
Era um gajo estranho com música estranha e estava no apogeu da sua carreira. Contavam-se todo o tipo de mitos e lendas sobre ele. A tour de suporte a este álbum veio a dar num "live" que é talvez a melhor publicação de MM.


Once in a LIVEtime (Dream Theater)
O primeiro "live" de DT com duração de concerto. Nem faltavam os solos de guitarra, teclas e bateria... Tem erros, tem um som razoável mas acima de tudo sem autenticidade. No vídeo vê-se um palco com luzes que parecem tiradas de um concerto de Emanuel de 1998. Isto era tudo antes dos DT lançarem um álbum por ano e para cada álbum um outro "live".

Ray of Light (Madonna)
Madonna num campo novo. Menos dança, menos disco, e muito ambiente, som espacial, etéreo. Uma produção impecável e uma experiência arriscada para uma marca que vendia tão bem.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Livros: Gone, Baby, Gone (1998)

O desaparecimento de Madeleine McCann há quase dois anos fez com que muito boa gente só agora se apercebesse que há crianças a desaparecer todos os dias, na maioria dos casos sem deixar rasto. O circo mediático que se estabeleceu trouxe coisas boas e más. Muita barbaridade se disse, muito oportunismo houve, muito mal continua a cheirar toda a estória. Mas também permitiu reavivar casos de outros desaparecimentos, há muito esquecidos da opinião pública.

Porém, nunca esquecidos de um pai ou de uma mãe. A morte de alguém que nos é querido, por muito dolorosa que seja, é sempre um ponto final bem definido. O desaparecimento de alguém deixa apenas um vazio e muitas reticências, quase sempre uma esperança que por ténue que seja mantém-se irrevogavelmente acesa. Quem teve a felicidade de nunca passar por semelhante situação apenas pode imaginar o drama. A realidade é, decerto, infinitamente pior e mais desgastante.

Dennis Lehane escreveu uma obra de ficção quase dez anos antes que infelizmente parece agora, em boa parte, uma premonição daquilo que se passou com Madeleine McCann em 2007. "Gone, Baby, Gone" retrata a estória do desaparecimento de Amanda McCready, de 4 anos, e a trama à volta disso que envolve polícias, traficantes de droga, assassinos, pederastas, pedófilos e detectives por conta própria. You name it.

Autor do genial Mystic River, Lehane é mais um daqueles escritores americanos que parece ter tanta facilidade em escrever page turners como o leitor tem facilidade a lê-los. A prosa escorre com uma rapidez alucinante e, especialmente no caso de "Gone, Baby, Gone", são tantos os twists no argumento que ao chegar finalmente ao fim do livro dei por mim a admirar o génio deste norte-americano de 43 anos. Digamos um Dan Brown com perspectiva moral e social, mas sem as façanhas irreais, pouco plausíveis e hollywoodescas dos seus heróis. E muito, mas muito melhor.

A genialidade de que falo tem razões bem específicas. Ao longo das 512 páginas, desfilam personagens extremamente bem modeladas e cativantes; inúmeras "cenas" magistrais onde o ambiente é descrito de tal forma que nos sentimos "lá" e que são invariavelmente pautadas por diálogos magistrais; curvas e contra-curvas que nos deixam sempre na dúvida acerca do que realmente aconteceu; mostra-nos de uma forma chocante - mas não sensacionalista - o drama que é o rapto de crianças pelos mais variados e hediondos motivos; e sobretudo coloca-nos perante um enorme dilema moral que se vai adensando ao longo da estória e que rebenta completamente no seu final.

Os melhores livros são definitivamente aqueles que nos deixam a pensar neles bem depois de os termos terminado. "Gone, Baby, Gone" é um deles.

O filme do mesmo nome, pela mão do estreante realizador Ben Affleck, é na minha opinião uma pobre amostra da riqueza que é a novela de Lehane. Talvez se o tivesse visto sem ter lido o livro pudesse partilhar a opinião de uma crítica mundial muitíssimo favorável.