Mostrar mensagens com a etiqueta filme. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filme. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Surrogates

imdb

Ano de produção: 2009

Realizador: Jonathan Mostow

Elenco: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike, James Cromwell

surrogates-poster

Baseado na BD homónima, a qual devo confessar que não li e não conhecia, Surrogates é um filme de ficção científica sobre um futuro bastante provável – aquele em que deixamos de sair à rua para deixar que perfeitos e indestrutíveis robots façam o nosso trabalho “sujo”: viver. A ideia é simples. Cada um de nós teria um surrogate (substituto), que assumiria a nossa vida, controlado pelas nossas ondas cerebrais – nós seriamos o seu cérebro, sem sair de casa. Este surrogate faz tudo por nós: está suceptível a doenças, acidentes, emoções fortes, é o saco de pancada do patrão, etc. E nós passamos a vida de pijama e robe, comendo e engordando sem por um segundo pensar em ir ao ginásio, porque afinal o mundo conhece-nos pelo nosso robot: aquele perfeito ser de plástico que não precisa de lipoaspirações nem de correr na passadeira durante dez minutos por dia. E melhor. Acabaram-se as operações de transgender. Ninguém é obrigado a ser, no mundo, o que é no conforto do seu lar. Acabaram-se as tomas de hormonas e os cirurgiões plásticos (duas indústrias que concerteza seriam extintas: a farmácia e a cirurgia plástica).

Bruce Willis protagoniza este filme que levanta uma série de questões éticas e morais. É verdade que o tema não é completamente novo – vivemos com filmes sobre cyborgs desde que nascemos, especialmente a geração de 80, mas digamos que este argumento é um concentrado de todas as problemáticas. Não sendo uma narrativa-exemplar, por lhe faltar emoção e acção à trama, é interessante do ponto de vista académico. Ter um surrogate é bastante cómodo, a todos os níveis – até porque, sendo indestrutível, nós podemos saltar de prédios e levar com um carro em cima sem ir parar ao hospital, o que concerteza dará uma sensação de poder incrível. Por outro lado, e porque não há bela nem senão, é óbvio que esta comodidade se tornaria um vício. O ideal seria usar o substituto para as partes mais ingratas da vida, mas continuar a frui-la da melhor maneira. Afinal, que melhor que ter um clone pelas ruas enquanto nós, no conforto do nosso lar, podemos ser saudáveis e felizes sem preocupações? O problema é que ninguém pensou nisso. O problema é que toda a gente se habituou a que a máquina fizesse tudo, incluindo viver as suas relações amorosas. Bruce Willis personaliza este problema. Ele e a mulher perderam o filho num acidente, numa era pré-surrogates. Desde então, perderam toda a vontade de enfrentar o mundo, e adoraram os surrogates porque, afinal, se tivessem tido um antes do acidente, o seu filho ainda estaria vivo. Mas o que aconteceu à crónica insatisfação do homem? O que aconteceu ao que nos torna humanos – seres sedentos de emoções novas, novos desafios, o que nos testa e torna melhores? Os surrogates só deixam lugar à apatia, alienação, ao descuido do corpo e ao menosprezo do eu. Se existe outro melhor que eu, que se faz passar por mim, porque irei lutar?

Eis então que o próprio fundador dos surrogates percebe o erro que cometeu, e tenta reverter a situação. Canter (James Cromwell), queria dar voz aos incapacitados, eliminar as diferenças e discriminações sociais, não tornar o mundo numa massa amorfe e esquecida de viver. Mas será que é possível voltar ao passado depois de viver um futuro tão cómodo?

Veredicto: 5/10 (Não dou mais porque a acção deixa a desejar)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Inglourious Pousters


Já aqui tivemos oportunidade de mostrar um po(u)ster ou outro à medida que foram saíndo. Agora, com a estreia de Cannes mesmo à porta (é já amanhã), aqui fica o link para todos eles.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

The Good Ol' Days #3: Escape From L.A.

Realizado por: John Carpenter
Com: Kurt Russell, Pam Grier, Steve Buscemi, Peter Fonda
imdb

Já agora, para acabar a minha trilogia de [Kurt Russel+John Carpenter = Filmes de Culto], apresento a sequela a Nova Iorque, 1997: Fuga de Los Angeles.

A história repete-se: No ano 2000, Los Angeles sofre o grande terramoto e separa-se fisicamente dos restantes estados, tornando-se uma ilha de prisioneiros. Quando a filha do presidente dos EUA, Utopia, é manipulada por um desses prisioneiros, Cuervo Jones, para trazer um dispositivo que desencadeará o fim do mundo como o conhecemos, o novo comandante de segurança do Presidente, Malloy, convoca o zarolho Snake Plissken para a missão de extracção. Mais uma vez, Snake é posto à prova: um vírus injectado no seu corpo irá matá-lo caso não cumpra a missão em menos de 9 horas.

A grande diferença deste filme para o seu antecessor é o subtexto satírico que o envolve. Na altura do terramoto, os EUA sofreram uma enorme reviravolta no seu sistema quer político, quer social, de regras. Agora o nome da confederação de estados chama-se New Moral America e encarrega-se disso mesmo: ser um modelo para o resto do mundo, estabelecendo standards morais. Quem os desrespeitar, quem fumar, comer carne vermelha, "fornicar", e em alguns estados, for muçulmano, é deportado para Los Angeles em conjunto com os criminosos.

Claro que está mais que evidente a forma como essa história se correlaciona cada vez mais com os Estados Unidos e o seu falso moralismo. (já em 1996 era assim...)
De resto, acredito que Russell e Carpenter tenham pensado que se havia uma boa altura para fazer o remake com um fresh twist, aquela era a ideal.
Para além disso, o filme conta com a rainha do funkadelic Pam Grier, Steve Buscemi como o hilariante "Maps-To-The-Stars" Eddie, e Snake ainda surfa um tsunami com Peter Fonda.

Mais uma vez, groovy como tudo.

The Good Ol' Days #2: Escape From New York

Realizado por: John Carpenter
Com: Kurt Russel, Lee Van Cleef, Isaac Hayes
imdb

O resto do mundo conheceu este filme, de uma forma ou de outra, por Nova Iorque: 1997.

Como podemos assumir pela lógica, o filme começa em Nova Iorque. O ano, 1997. Manhattan é agora uma prisão de máxima segurança onde os prisioneiros são deixado às suas próprias regras, hierarquias e leis. Quando o Air Force One é sequestrado com o Presidente dos Estado Unido da América a bordo, este ejecta-se num veículo de emergência, aterrando na ilha em questão.
Para o resgatarem, o comissário da polícia Hauk (interpretado pelo vilãozissimo Lee Van Cleef) contacta um herói de guerra ex-Forças Especiais, agora ladrão de bancos aprisionado, que dá pelo nome de Snake Plissken. Em troca do Presidente, oferece-lhe a sua liberdade. Mas existe uma condição: Hauk implantou cápsulas explosivas no pescoço de Snake. Se Snake não voltar dentro de 24 horas com o Presidente, morre.

Tiros, mortes, gangues, apocalipse, presos, corrupção, estilo, e o fanfarrão mais pausado de todos os tempos. Assim se apresenta Nova Iorque: 1997. Carpenter no seu fantástico estilo de storytelling linear, Kurt Russel com uma pala no olho. Como se isso não bastasse, John C decidiu que o rei dos prisioneiros de Manhattan, o guerrilheiro auto-proclamado The Duke of New York, seria interpretado por ninguém menos que o barítono Isaac Hayes.

Só a tagline diz tudo: "1997: New York is a walled maximum security prison. Breaking out is impossible. Breaking in is insane..."

Se isto não é um groove de filme, não sei o que será...

The Good Ol' Days #1: Big Trouble In Little China

Realizado por: John Carpenter
Com: Kurt Russell, Kim Catrall
imdb

Que tal o original em Português? As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim. Cá está um grande título que demonstra imediatamente a aventura épica que estamos prestes a presenciar! E refiro-me a este post porque, verdade seja dita, a descarga de adrenalina e emoção que é ver Jack Burton a combater ninjas não pode ser descrita por palavras mortais. Escrito pelo fenomenal (noutras áreas) Gary Oldman e realizado por John Carpenter, este sim é o filme kitsch a ter em casa.

Para quem se lembra, Jack Burton é um camionista chico-esperto de vida rotineira que, ao saber do rapto da noiva do seu melhor amigo, se vê envolvido numa missão de resgate. Essa missão leva-o ao submundo existente por baixo de Chinatown, onde Lo Pan, um feiticeiro mandarim de 2000 anos que procura casar com uma chinesa de olhos verdes (daí o rapto), governa uma dimensão de monges do kung-fu e espirítos maléficos que faram de tudo para impedir Burton de resgatar.

Gangues lutadores, moges, chinesas enfeitiçadas, uma Kim Katrall (sim, a Samantha do Sexo e a Cidade) ainda com 20 anos muito bem feitinhos, Kurt Russel no papel percursor da sua carreira badass, mandarins mágicos, cabeças voadoras, espíritos enfurecidos, facas retribuídas (quem se não se lembra dessa cena? "It´s all in the reflexes"), camiões, esgotos e anos 80. Tem tudo para dar no melhor filme camp de todos os tempos!

Claramente, este seria o primeiro passo para o batalhão de filmes de culto que se avizinhariam nas próximas décadas. Muito antes de Tarantino saber o que era cool, já Kurt Russell e John Carpenter ensinavam a adolescentes hiperactivos e sedentos de sangue.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Valquíria

Realizado por: Bryan Singer
Com: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy
imdb



A primeira coisa que me veio à cabeça quando vi o nome de Bryan Singer associado a Valquíria foi: "o realizador de X-Men e de Superman Returns num filme histórico? Vai dar asneira". Ainda por cima não gostei particularmente de nenhum dos filmes - já é sobejamente conhecida a minha implicância com adaptações de bandas-desenhadas.

Apesar da primeira hesitação devido ao realizador, o trailer e a história original conquistaram-me. Os dois minutos de antevisão do filme fizeram-me pensar que era um daqueles filmes históricos sem tempo para respirar, pleno de personalidades fortes e inspiradoras. Não me enganei. A história falava da coragem da resistência alemã, de uma minoria não-cega pelas ambições sem escrúpulos de Hitler, um punhado de homens decididos a mudar os títulos das páginas dos livros de História, onde um dia ser leria "A Alemanha de Hitler". Senti que seria o típico filme histórico que arrebata e inspira. Mais uma vez, não me enganei.

No entanto, duas horas depois no Cinemax do Beloura, não me senti arrebatada pelo filme de Bryan Singer. Qual foi o problema? A minha mania de "fazer os trabalhos de casa", motivada também pela pessoa que foi comigo ver o filme. "Canal História, já!", lia-se na mensagem que recebi uns dias antes da estreia. Estava a dar um programa do canal História, que contava em pormenor a operação Valquíria. Ver o programa estragou o factor surpresa do recheio do filme. Já sabia que a operação para matar Hitler não tinha resultado, ou a História teria sido diferente, mas não sabia como tinha sido planeada, por quem, como, porquê. Claro que o canal História contou tudo e deitou todo o trabalho de Singer por terra.

De qualquer modo, não pude deixar de apreciar a interpretação de Tom Cruise como Coronel Claus von Stauffenberg, determinado e eloquente, que se anulou para ser em cada nervo do seu corpo o temerário militar. Mais que gravado na minha memória está o momento em que Stauffenberg levanta o coto, resultado de um incidente na Tunísia, para fazer "Heil, Hitler", numa clara e enraivecida prova de aversão ao Führer.

Um bom filme para lembrar que Alemanha não é sinónimo de Hitler.

Veredicto: 6/10

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Shinichin No Samurai

Realizado por: Akira Kurosawa
Com: Takashi Shimura; Toshirô Mifune; Yoshio Inaba; Minoru Chiaki
imdb

Pensei muito sobre este filme na semana que passou.

Pensei sobre ele quando estive a fazer a lista. Ele pertence lá mas há qualquer coisa mais que o torna em algo superior. Então revi o filme.

Em 1954 Akira Kurosawa cria o seu filme mais épico de sempre, Os Sete Samurais.
Causou um estrondo no panorama do Cinema Oriental, e também alguma polémica, principalmente devido à maneira como descreve os Samurais.
Até aí todos estes guerreiros eram descritos como semi-divindades. Seguiam o seu código, o Bushido, e viviam grandes aventuras e confrontos ao serviço dos senhores feudais, os Shoguns.

Mas Kurosawa começa o filme na Sengoku Jidai, uma era de grande instabilidade politica no Japão. Um grupo de bandidos cerca uma aldeia. Ao verem que os víveres que poderiam pilhar aos aldeães são escassos, decidem partir para voltar na altura da colheita do arroz. Ao testemunharem a sua partida, o lavradores decidem contratar Samurais para os defenderem.

Sem nada com que pagar aos Guerreiros, viram-se para Ronins, Samurais que já não obedecem a um senhor feudal, e prometem alimento e guarida a esse guerreiros vagabundos em troca de protecção. Encontram um piedoso mas magnífico lutador que aparenta ter uma veia caridosa.
É Kambei que se tornará no líder da busca pelos restantes 6 Samurais e no fim os levará à guerra com os bandidos.

Vou tentar ser sucinto: é impossível não amar este filme. São três horas e meia de puro extâse sem conseguir tirar o olho do ecrã. Desde os personagens à história, das interpretações à mise-en-scène.
Todos os planos, todas as panorâmicas, todos os corte são executados com uma precisão divina. A maneira como Kurosawa leva o olho do espectador para certas zonas do ecrã apenas pela estruturação e posicionamento dos personagens na tela.

O que me pareceu verdadeiramente um toque de mestria foi a maneira como filmou as cenas de combate. As câmera-lentas e o controlo sobre tudo o que se passa. Principalmente, a maneira como as batalhas simbolizam o espírito do filme, dando importância aos que lutam, ignorando ou menosprezando a batalha em si. Mortes, ferimentos, explosões, tiroteios e duelos são todos postos para segundo plano ou mesmo fora de cena. O valor atribuído aos enterros dos que caem em combate contraposto à queda em si é fenomenalmente humano.

Por último, e para me despachar, a performance do golden boy de Akira Kurosawa, Toshirô Mifune. Desde os momentos de comédia à complexidade desta personagem, os seus tiques, o seu background progressivamente revelado. A sua presença ameaçadora. O seu monólogo.

E que monólogo. Na beira do penhasco da desistência, Kikuchiyo (Mifune), revela o grande segredo da sua infância num misto de tom jocoso e gravidade mórbida. O espectador ri-se a principio apenas para se sentir culpado da gargalhada uns momentos mais tarde. Uma das melhores cenas e definitivamente uma àrdua tarefa para qualquer actor.

Este filme é, porventura, o melhor filme que alguma vez vi.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Inglourious Basterds

Tinha grandes espectativas para este filme.
Grande premissa, grande cast e grande buzz à volta do filme.

Vi hoje o trailer e devo dizer que não gostei. Não só não gostei como fiquei extremamente desiludido.
Esta era a hipótese de Tarantino se redimir de Grindhouse e mostrar que o seu estilo estava a influenciar Rodriguez e não o contrário.
Pensava que Tarantino ia finalmente sair do negócio de providenciar fantasias a ejaculadores precoces e dar um salto para o Cinema Legítimo. Que ia deixar-se de brincadeiras. Começo a achar que Reservoir e Pulp foram acidentes geniais.

Temo que este filme vá ser infantil, gratuito, cartoonish e arrogantemente pedante.

"You haven't seen war until you've seen it through the eyes of Quentin Tarantino"....
Por amor de Deus...este homem passou de génio a patético. Nem o Brad Pitt se safou com aquele tom arrastado e foleiro na voz.

Este filme parece uma caricatura de si próprio. E a banda sonora de rockzinho genérico para dar um ar pseudo-cool também está muito fatela.

Fatela....sim, parece-me ser a única palavra.

Trace, care to comment?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sicko (2007)

Realizado Por: Michael Moore
IMDb


Michael Moore é das mais conhecidas vozes dissidentes da América, muito por culpa da exposição que tem tido através dos seus vários documentários. Normalmente obcecado por mostrar aos mundo os horrores perpetrados pela administração Bush (Fahrenheit 9/11) ou dos norte-americanos contra si próprios (Bowling For Columbine), em "Sicko" Moore faz uma incursão pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, onde reinam as seguradoras e onde o lucro é suficientemente importante para justificar que ande a morrer gente sem necessidade.

Há algo comum em todos os documentários deste estilo onde a ideia é chocar-nos, mexer com os nossos sentimentos, surpreender-nos e se possível fazer-nos revoltar. Ou qualquer combinação destes. O grande problema de inúmeros activistas, embora bem intencionados, acaba muitas vezes por ser o extremismo, uma certa cegueira pelas ideias que ardentemente defendem e cujo tiro acaba por sair pela culatra. O mundo está cheio de exemplos destes, onde boas ideias acabam por terra exclusivamente por falta de bom senso.

Moore não se enquadra propriamente nesta descrição mas os seus documentários têm a tendência para me deixar de pé atrás pela maneira americana que usa para criticar a... maneira americana. Embora adopte à primeira vista uma atitude de investigação imparcial, Moore é demasiado sensacionalista na forma como nos mostra o resultado das suas diligências, mesmo compreendendo que o objectivo é chocar e mobilizar.

Há factos inegáveis em "Sicko", provavelmente a esmagadora maioria deles e claramente são suficientes para nos sensibilizar e nos fazer crer que algo está muito podre no reino da América. No entanto, da mesma forma que nos anúncios de produtos de beleza em que vemos um "Antes" e um "Depois" o antes é particularmente desleixado e o depois é particularmente cuidado, também "Sicko" sofre dessa assimetria na forma como pinta a América como um matadouro e basicamente o resto do mundo como um paraíso onde tudo é a borla e qualquer um, com uma mão no bolso, tem pelo menos 3 LCDs em casa e 2 BMWs à porta. Para quem vive fora da América, pelo menos, acreditar piamente nos factos de Moore é quase uma questão de fé. Da América apenas o mau é mostrado, do resto do mundo apenas o bom.

Não deixa de ser curioso como a digressão mundial pelas várias realidades que o realizador nos apresenta termina precisamente em Cuba. Não obstante a estupidez néscia e inútil que é ter levado consigo um grupo de voluntários do 11 de Setembro gravemente doentes para serem tratados na base de Guantánamo (!) - que obviamente não funcionou - a passagem por Cuba propriamente dita é interessante até porque é do domínio público a categoria dos cuidados de saúde em terras de Fidel.

Que as coisas na América levam caminhos misteriosos, já todos sabíamos. Mas não nos queiram fazer crer que tudo são rosas nos outros lugares. "Sicko" é um bom documentário e sobretudo tecnicamente bem executado, como é apanágio de Michael Moore. Sofre apenas de um astigmatismo que incomoda e que acaba por funcionar um pouco contra a própria mensagem.

E agora que Bush está fora de cena - ou mais ou menos isso - será que Obama vai levar Moore ao desemprego?

Veredicto: 6,5/10

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

The Man From Earth (2007)

Realizado por: Richard Schenkman
Com: David Lee Smith, Tony Todd, John Billingsley, Ellen Crawford
IMDb

Assumindo de antemão um desconhecimento quase total em relação a Jerome Bixby, vale a pena explorar brevemente a importância deste escritor no panorama da ficção científica na última metade do século passado. Apesar de uma bibliografia reduzida, Bixby escreveu o argumento original de It! The Terror from Beyond Space - que haveria de servir mais tarde de inspiração para o "Alien" de 1979. Além disso, teve um contributo importante em Star Trek, nomeadamente com a criação do conceito de "Mirror Universe", em 1967. De maior relevância para o assunto que nos traz aqui hoje é "Requiem for Methuselah", um episódio também do Star Trek, que Bixby imaginou e escreveu.

É o desafio perpétuo de qualquer crítico de cinema - sei que o é para mim, mesmo não sendo um crítico per se - escrever sobre um filme sem beliscar minimamente a experiência de quem ainda não o viu. Diria que não é possível, sobretudo em certos filmes que dependem da surpresa. "The Man From Earth" não é propriamente um episódio de "24", em que cada detalhe é um twist que só visto - lembro-me que às tantas já não conseguíamos discutir a série entre amigos. Mas é tão bom e toma proporções tais que qualquer espectador merece entrar nesta estória completamente a frio. Ou seja, vejam o filme, se ainda não o fizeram e depois, por que não retomar o discurso deste vosso humilde escriba?

...

Fazer um filme com meia dúzia de actores, um par de cenários e muita conversa é especialmente simpático para o produtor. No caso de obras como por exemplo "Cube" ou a parte central "Saw", é óptimo também para quem assiste pois, da mesma forma que muitas vezes os jogos mais simples são os mais viciantes, também um filme despido de adereços e fortemente baseado no diálogo pode ser extremamente cativante. É o que se passa com "The Man From Earth", um filme que começa com o pretexto de uma festa de despedida ad-hoc do Professor John Oldman e resulta porque as razões dessa despedida e o próprio passado de Oldman - e que passado - são absolutamente fascinantes.

Esse fascínio é muito semelhante àquele que sentimos quando estamos à volta de uma lareira a ouvir uma excelente estória de quem já viveu muitos anos e tem muito para contar. Bixby, ao criar Oldman incutiu-lhe essa estória e Richard Schenkman, enquanto realizador, deu-lhe as condições para que funcionasse no ecrã. Passamos quase hora e meia a ouvir fascinados episódio atrás de episódio de algo que toma proporções bíblicas. Literalmente.


"The Man From Earth" é um bom teste à nossa credulidade, até que ponto acreditamos no que nos dizem e até que ponto é possível abalarem as bases das nossas convicções. Por outro lado, é apenas uma óptima estória de ficção científica, especialmente para aqueles a quem o termo repele - não há aqui naves espaciais, nem homenzinhos verdes. Há apenas e só uma bela ideia para um argumento, que naturalmente não pede licença para esticar o que entendemos por plausível - interpretada de forma magnífica por um punhado de actores desconhecidos. David Lee Smith é especialmente cativante no principal papel, num ambiente que faz lembrar de certa forma "Twin Peaks". Aliás tudo neste filme cheira a indie. No bom sentido.

Apenas uma reclamação. Mesmo no final, Schenkman tem a oportunidade de nos deixar ir embora na dúvida, aliás como todos os colegas de Oldman que ouviram a estória. Não sei como é o argumento original de Bixby - completado em 1998, pouco antes de morrer - mas o realizador optou por nos dar a verdade à colher. Às vezes é melhor sabermos menos e imaginarmos mais.

Veredicto: 7/10

Sete mortes, sete vidas

Seven Pounds
Realizado por: Gabriele Muccino
Com: Will Smith, Rosario Dawson, Michael Ealy


[SPOILERS]

Sete vidas é um filme interessante apesar de ter uma história muito mais interessante do que o filme. Um homem provoca um acidente onde morrem sete pessoas; a partir desse dia a sua vida resume-se a salvar sete vidas, como forma de reparar o dano causado. Para salvar a última pessoa comete o sacrifício final de dar a sua própria vida.

Notas:
- O filme começa com uma parte da sequência final. Começar com o fim é um recurso gasto e é preciso alguam habilidade para o usar, sob pena de se ficar com uma espécie de teaser promocional agarrado ao início do filme que no todo fica apenas como apêndice desnecessário.
- Will Smith talvez não seja o actor indicado para o papel principal de 7 Pounds, falta alguém com um ar mais respeitável (e que não tenha feito três filmes por ano nos últimos anos).
- Rosario Dawson está perfeita naquele papel, ficarei atento aos próximos trabalhos da senhora que já tinha aparecido com ar de má em Sin City.

O que mais me irrita é mesmo o facto de uma história tão interessante e que até está bem executada em filme (a história flui bem, o filme tem o tempo certo se excluírmos o intervalo da Lusomundo, a fotografia é interessante, a personagem secundária é interessante, etc...) acabar por sair prejudicada em 7 Pounds.

Ponho a culpa em Will Smith mas também nas escolhas que levam a explorar demais o amor entre Ben e Emily. Na verdade o tema principal não é este amor, que é comum e banal, é sim a dedicação e esforço de Ben em reparar a fatalidade que inadvertidamente causou. Isto merecia ser melhor explorado - o sentimento de culpa, a vontade de reparar o dano causado, o altruísmo até para desconhecidos e, em suma, o poder semi-divino que Ben tem de salvar sete vidas.

Há sete pessoas salvas, há um homem que se sacrifica para salvar sete vidas e no fim temos de aturar meio filme a ver uma relação do género "as palavras que nunca te direi"... Seria interessante ver o que outro realizador faria com este argumento.

Veredicto: 6/10

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Second Life (2009)

Realizado por: Alexandre Valente e Miguel Gaudêncio
Com: Piotr Adamczyk, Lúcia Moniz, Cláudia Vieira
IMDb

Poster
Depois de Corrupção e O Crime do Padre Amaro se terem tornado êxitos de bilheteira, o produtor Alexandre Valente (que entrou para a História do Cinema Português por ter estreado Corrupção à revelia do realizador, que retirou a sua assinatura do projecto), acreditou ter encontrado a receita do sucesso e especialmente, uma maneira de levar o público português a pagar pelo Cinema português: mulheres nuas e sexo. Quando concebeu Second Life, pensou que as cenas íntimas entre Liliana Santos e Sandra Cóias bastariam para vender o filme ao "grande público" (que insulta por tratá-lo como um devorador de cenas porno) e torná-lo "o melhor do ano". Como bem afirmou João Lopes em Sound+Vision, um filme não se mede pela quantidade de pessoas que leva ao Cinema, ou melhor, isso não deve ser razão para dizer que um filme é bom. Vejamos por exemplo, o Mamma Mia!, que foi o filme mais visto em Portugal em 2008, e salvo erro o DVD mais comprado na Grã-Bretanha. É um bom filme? Não, está mal realizado, as câmaras parecem andar loucas à procura da frenética Meryl Streep que canta e dança por cada canto da sua ilha grega. É um fun movie que leva toda a gente ao Cinema, como a Rita Guerra e o Tony Carreira figuram nos Tops Fnac - não são bons, mas por alguma razão, há quem goste.

Alexandre Valente afirmou, prepontente, que Second Life é o melhor filme português até agora realizado e que iria revolucionar o Cinema do nosso país. Claro que me deu vontade de rir quando ouvi isto, porque pelo trailer e pelo historial do realizador, já imaginava que não ia sair grande coisa. Mais tarde, 82 penosos minutos depois (pareceu longo apesar de curto), as minhas suspeitas confirmaram-se. Além de não existir qualquer química entre os actores, que representam o grupo de amigos mais desinteressados e pouco à-vontade de sempre, os diálogos são tão ridículos e pobres que parecem ter sido escritos por uma criança de 14 anos. Contexto: o filme passa-se durante uma festa de aniversário no Algarve, em que o anfitrião (o polaco Piotr Adamczyk) é encontrado morto na piscina e se torna a voz-off do filme, passando em revista a sua vida nos últimos anos e as escolhas que podia ter feito e que podiam ter evitado este destino. Entretanto, vamos descobrindo traições e mentiras dos seus amigos em relação a si, mas nada de muito elaborado - o enredo tão simples e previsível que insulta o espectador mais básico.

second life

Há momentos em que dá vontade de bater com a cabeça nas cadeiras de tão estúpidos que são os diálogos, como na cena em que o polícia (Pepê Rapazote) chega à quinta do protagonista e vê o sujeito a flutuar na piscina. "Então, não tiraram o homem da piscina?", pergunta. "Está morto!", responde um pouco convicente Pedro Lima. "Bem, se não estava, agora está mesmo!". Toda a sala explodiu em riso nesta cena, não pela tentativa de piada, mas pelo ridículo.

Pergunto-me agora se Alexandre Valente não aprendeu nada com Manhã Submersa, de Lauro António, ou Alice, de Marco Martins, exemplos de que o Cinema português é bom e pode ter sucesso junto ao público. Parece que Alexandre Valente só está interessado em fazer dinheiro da maneira mais fácil e triste possível. Será que ele acredita que Second Life é mesmo um bom filme ou está a gozar com o público português?

Veredicto: 1/10

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Son of Rambow (2007)

Realizado Por: Garth Jennings.
Com: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes.
IMDb

Estreou em Portugal no Festival de Cinema Independente de Lisboa'08, integrado no programa Indie Júnior, uma inovação do certame. Pelo seu horário de exibição, às 10h, não vi, na altura do festival, aquele que considerei uma das grandes apostas do evento. De facto, Son of Rambow acabou por receber o Prémio do Público Indie Júnior. É fácil perceber porquê.

Filho Rambow 

Na Grã-Bretanha dos anos 80, uma pequena comunidade de uma vila rural resistia à metamorfose da sociedade para os novos cânones da modernidade entre as paredes de uma igreja protestante, que proibia os seus crentes de ver televisão e classificava como pecaminosos todos os avanços da tecnologia. Para aquelas mulheres de lenço na cabeça e homens de olhar austero, que tiravam o relógio antes de cada cerimónia religiosa, o mundo cingia-se a Deus e nada mais que a Deus. Fechado naquela comunidade de género Amish, Will Proudfoot refugiava-se num caderno onde pintava histórias de heróis aventureiros inventados por si, e fazia correr ao cantinho da página personagens animados - o princípio do Cinema, dar movimento a imagens paradas. Mas Will não conhecia o Cinema.



Incentivado pelo rufia da escola, Lee Carter, Will conheceu o Cinema a partir de algumas cenas de um filme de Rambo. Will identificou imediatamente os heróis que desenhava no caderno com as aventuras do intrépido soldado norte-americano e concordou com Lee em ser o protagonista dos seus trash movies, inspirados na personagem de Sylvester Stallone.


É assim que começa uma verdadeira ode à amizade e ao Cinema como o imaginamos desde pequenos: uma aventura que apenas depende de uma câmara de filmar, actores destemidos e algumas engenhocas. Somos completamente contagiados pelo entusiasmo de Will e Lee, que estão decididos a ganhar um concurso para jovens cineastas. De facto, Garth Jennings não podia ter encontrado melhor forma de nos puxar para dentro do filme, já que a modesta vila que serve de cenário, as calças apertadas em baixo, o ar de punk dos anos 80 de Didier, um estudante francês, e o deslumbre pelo despontar da tecnologia são o espelho da nossa infância. Saímos do filme com vontade de ser crianças outra vez, de acreditar em tudo com a mesma ingenuidade e sede de devorar o mundo como outrora.

Veredicto: 7/10

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Slumdog Millionaire (2008)

Realizado Por: Danny Boyle
Com: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Freida Pinto
IMDb

Danny Boyle era até agora conhecido sobretudo por ser o realizador do seminal Trainspotting - e, em menor escala, pelo interessante 28 Days Later - mas isso agora acabou. Slumdog Millionaire passa a ser uma referência no currículo deste britânico de 51 anos, película já galardoada com o Globo de Ouro para o Melhor Filme Dramático do ano e certamente com lugar reservado em várias categorias da cerimónia dos Óscares que se aproxima.

Há três coisas particularmente interessantes em Slumdog Millionaire. A primeira prende-se com o retrato de uma Índia que nem sempre nos é dado a conhecer, muito mais próxima da favela brasileira. É neste panorama - onde notavelmente todos parecem estar contentes no seu quotidiano, sobretudo as crianças - que os irmãos Jamal e Salim crescem e se desunham por sobreviver apoiados nos seus instintos e na sua argúcia.

O segundo aspecto notável é como Boyle consegue transpôr para este filme o ambiente frenético e o ritmo acelerado de Trainspotting. Que o estilo funciona também aqui é não só um atestado da qualidade de Boyle e da montagem do novato Chris Dickens, mas também algo que acaba por ser um dos trunfos de Slumdog Millionaire ao longo das suas duas horas. E já que se fala de montagem, começa a tornar-se lugar comum hoje em dia andar com analepses e prolepses. O sucesso da escolha por esse estilo acaba por ser se o filme beneficia disso, ou não, e definitivamente Slumdog Millionaire não só beneficia como me arriscaria a dizer que não podia passar sem isso. Pelo menos, estaria mais longe do grande filme que é.


Finalmente, e correndo o risco de reduzir um pouco a experiência de quem ainda não teve oportunidade de ver o filme (leia-se spoilers), o terceiro aspecto é como Boyle disfarça o que na realidade é uma estória de amor, e bem bonita enquanto tal. Estórias destas já têm barbas no grande ecrã, mas funcionam sempre se as personagens nos interessarem, se nos preocuparmos com elas. Aqui, Jamal e Salim são tudo menos planos e o percurso deles é apaixonante, fazendo com que nos colemos ao ecrã a seguir as suas aventuras.


Que toda a publicidade à volta do filme aponte para o facto de Jamal ser um concorrente da versão indiana do "Quem Quer Ser Milionário?" que sabe a resposta a todas as perguntas, embora verdade, é apenas mais um brilhante truque de ilusionismo.

O porquê de Jamal saber as respostas é que é a alma de Slumdog Millionaire e o seu verdadeiro toque de magia.

Veredicto: 8/10

RocknRolla (2008)

Realizado Por: Guy Ritchie
Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton
IMDb

Aqui está um belo pedaço de filme.

Começemos pelo princípio. Guy Ritchie nasceu e cresceu como um verdadeiro Bretão.

Conhecendo as característica que tornam um ser em humano e um ser humano num cidadão da Rainha, Ritchie colocou toda essa perspicácia em acção nos seu filmes. Tal como a selva Londrina, as comédias escritas e realizadas por ele vão além do punch-and-gag do costume no panorama inglês. Guy prefere a farsa. E a definição cinematográfica de farsa é um conjunto amplo de personagens que se cruzam directa ou indirectamente numa espiral de eventos que levam a uma temida e inesperada conclusão, dentro ou fora do controlo dos mesmos.


O primeiro, Lock, Stock and Two Smoking Barrels, fals de quatro rapazes cockney que perdem meio milhão de libras num jogo de cartas com um mafioso, rei da indústria pornográfica londrina, que agora ameaça cortar-lhes um dedo por cada dia que passe do prazo de entrega do dinheiro. Acidentalmente, os rapazes ouvem uma conversa dos vizinhos, quatro gangsters que acabaram de cometer um assalto, onde é dito que vão assaltar um apartamento onde se cresce e distribui marijuana. Depois instala-se o caos quando entram ao barulho colectores de dividas sem escrupulos, barões da droga malucos, mafiosos, stoners e ladrões.


O segundo filme, Snatch - Porcos e Diamantes, fala exactamente sobre isso. Turkish, um promotor de combates de boxe ilegais e agente do lutador Gorgeous George, e o seu cúmplice Tommy, têm um combate marcado com Brick Top, um mafioso que alimenta os seus inimigos às hordes de porcos esfomeados na sua quinta. Quando Tommy vai com George a um campo de pikeys (ciganos irlandeses) comprar uma carvana, acaba por ofender O'Neill, que desafia George para um combate de boxe, escondendo o facto de ser campeão de boxe cigano a punhos descobertos. Quando deixa George incapaz de lutar contra o lutador de Brick Top, Turkish tem de resolver a situação depressa para não ficar em dívida para com Brick Top. Escolhe então o cigano O'Neill para substituir George no combate. E é então que o caos se instala. (Só tendo passado meia hora de filme.)

Entretanto Franky Four Fingers, um ladrão de diamantes com o vício do jogo, rouba uma pedra de valor incalculável que acaba por cair nas mãos de Sol e Vincent. Atrás da pedra andam também Bullet Tooth Tony, um capanga de Cousin Avi, Doug ,"The Head" e Boris, " The Blade" ou Boris, "The Bulletdodger", um mafioso russo traficante de armas.
Se existe uma boa qualidade que se destaca nas obras primas de Guy Ritchie é a facilidade com que simplifica estas histórias todas. As suas linhas narrativas são tão coerentes e sólidas que o espectador não se perde no meio desta confusão de personagens e eventos, antes pelo contrário: diverte-se com a aleatoridade propositada da quimíca que existe entre história e cenário.


No seu último filme Guy Ritchie deu nome ao seu estilo e ao que deveria ser a sua alcunha: RocknRolla.

Mais do que nunca, o que é dizer muito, os seus guiões repletos de personagens cativantes, reais, surreais e sedutoramente criminais transpiram no submundo da violência, drogas, sexo e rock and roll.
A história é contada, numa tão frequente e eloquentemente divertida narrativa omnipresente, nas palavras de Archie, o profissional e firme braço direito de Lenny Cole, um mafioso com ilusão de grandeza. Tudo começa quando Uri, um abastado gangster russo e Lenny colaboram num esquema trapaceiro de desenvolvimento imobiliário.

Com os seus contactos, Lenny pode subornar a Câmara Municipal a emitir o alvará de uma construção de outra forma proibida. Para isso precisa de dinheiro e é aí que entram os russos. Uri, depois de emprestar o seu quadro da sorte a Lenny, contacta a sua contabilista, Stella para "esconder" nos livros sete milhões de libras. Ao invés disso, Stella procura One Two e Mumbles, um terço do Wild Bunch, para roubar o dinheiro que ela vais "esconder", sem que Uri saiba. Só que One Two e e Mumbles estão em dívida para com Lenny.

Mesmo assim, sem saber de quem é nem para que serve o dinheiro, roubam-no na mesma e Lenny não consegue prosseguir o negócio. Começa o caos. Lenny procura os ladrões sem saber que são One Two e Mumbles, Uri duvida de Lenny, One Two e Mumbles pagam ao mesmo e o quadro emprestado é roubado sabendo-se mais tarde que por Johnny Quid, um rocker drogado e profundamente filosófico que se revela enteado de Lenny Cole.

Quando Uri pede o quadro a Lenny e este descobre quem o tem, é tarde demais. Uns "amigos" de Johhny Quid já o tiraram de casa e venderam a.... One Two que por sua vez ofereceu ao seu interesse amoroso, Stella, contabilista do Russo.

De salientar a espectacular cena de sexo: duas horas de sexo em 3 segundos. Apenas flashes de bocas, narizes e olhos enquanto se ouvem gemidos.

Quanto à banda sonora, é escusado entrar em grandes detalhes. Como sempre é o claro ponto forte da qualquer filme de Guy Ritchie. Se existe melhor "mood setter" que ele e a sua playlist cinematográfica, não sei quem é. Talvez Tarantino. Mas menos Rock And Roll.

O cast de actores esteve como sempre soberbo a interpretar a ralé Cockney e a realização obedece à eterna regra de Ritchie: estilo a cima de tudo - a forma como se diz é mais importante e melhor, mais interessante, do que o que se diz. Daí a narração que entra na cabeça dos personagens, os diálogos constantes e familiarmente cool e a importância que é dada à violência como sub produto da geração MTV.

E é disto que é feito "um" Guy Ritchie: Sexo, Drogas, Música, Comédia, Crime, Punk Glam e por último e mais importante, Rock and Roll.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Gran Torino (2008)

Realizado por: Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood, Cristopher Carley, Bee Vang, Ahney Her
IMDb

É admirável que o actor que muitos de nós instantaneamente associam com o loirinho sem nome de Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo leve já 53 anos de carreira como actor, os últimos 37 dos quais também como realizador e que resultaram em dois Óscares para Melhor Realizador e Melhor Filme (Unforgiven e Million Dollar Baby) sem esquecer outras tantas nomeações nas mesmas categorias (Mystic River e Letters From Iwo Jima). Eastwood é um daqueles senhores incontornáveis do cinema contemporâneo, cujos filmes privilegiam a estória em detrimento dos adornos, a substância em desfavor do estilo, muito na linha de algumas referências orientais, lembrando-me de repente de alguns filmes de Takeshi Kitano como Brother ou Hana-Bi. Todos os movimentos são em prol da estória que Eastwood nos quer contar.

É também admirável que aos 79 anos de idade Eastwood volte a desempenhar funções de realizador, produtor e também de actor, 4 anos depois do brilhante Million Dollar Baby. Desta vez Eastwood é Walt Kowalski, veterano da Guerra da Coreia, que fica viúvo imediatamente antes do início da estória que nos contam e cujo ódio e preconceito o levam a desprezar todos os que vivem à sua volta, incluíndo a sua própria família. A sua mais importante possessão, fruto dos anos que trabalhou numa fábrica da Ford, é um Gran Torino de 1972, que ele passa longos momentos a limpar e polir no jardim à frente da sua casa e no qual foi ele próprio, segundo conta, que montou a coluna da direcção.

Não é por isso de espantar que a sua atitude perante os seus vizinhos Hmong não seja propriamente a melhor. Na verdade, ele detesta-os, mais ainda quando um deles, o sossegado Thao, tenta roubar o seu Gran Torino. Quando Walt percebe que a mão de Thao foi forçada por um gang de asiáticos que o tentavam iniciar nas suas actividades, esse acaba por ser mais um elemento no processo de conversão de Walt, que começa a perceber que tem mais em comum com aquelas pessoas que moram ao lado do que inicialmente gostaria de admitir, algo que é acentuado a cada exemplo de egoísmo e materialismo da sua própria família.

Daqui para a frente não estarei a revelar nenhum segredo se disser que o objectivo de Walt passa a ser transformar Thao num homem à séria - pelo menos pelos seus padrões... - com capacidade de enfrentar os perigos da sua comunidade e defender-se a si próprio. A partir daqui, claro está, temos em mãos um conto clássico de como Walt abraçou estes Hmong e como estes o abraçaram a ele, contra todos os preconceitos e como os problemas deles passaram a ser também problemas dele.

Aborrecido? Nem por isso, porque Eastwood sabe realmente contar uma estória e Gran Torino não resulta num único momento de enfado. A resolução do filme é rápida e atípica e, não sendo incompreensível, tem o potencial para nos deixar um pouco frios. Talvez ajudado por isso, mentiria se dissesse que é um filme tão satisfatório como Million Dollar Baby ou Mystic River, apesar de partilhar alguns elementos de estilo com ambos. Na verdade, Gran Torino é mais uma pérola na forma de uma estória anti-racista que fica muitíssimo bem na folha de serviço de Eastwood.

Veredicto: 7,5/10

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Vicky Cristina Barcelona (2008)

Realizado Por: Woody Allen
Com: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Rebecca Hall
IMDb

Mais que não seja, "Vicky Cristina Barcelona" foi a oportunidade para Javier Bardem voltar a usar um corte de cabelo decente, depois da partida que os irmãos Coen lhe pregaram no brilhante "No Country For Old Men", grande vencedor dos Óscares do ano passado. Além disso, é mais um exemplo da versatilidade de Bardem, bastando recordarmo-nos, por exemplo, de "Mar Adentro" ou mais recentemente de "Love In The Time of Cholera". Este espanhol, natural das Canárias, já não é particularmente novo nestas andanças mas só recentemente parece ter dado o salto definitivo para o estrelato e ameaça tornar-se numa referência incontornável do cinema contemporâneo.

Mas voltemos a "Vicky Cristina Barcelona", que já venceu o Globo de Ouro para melhor filme musical ou comédia este ano, assinalando mais um sucesso do recente comeback Woody Allen. Confesso que deste regresso apenas vi "Scoop" e confesso também que não lhe achei a mínima piada. Se é verdade que sou um adepto confesso, por exemplo, do humor de "Seinfeld", não é menos verdade que não sou particularmente apaixonado pelo graças de Allen.

Talvez por isso tenha gostado bastante mais de "Vicky Cristina Barcelona" pois os apontamentos de humor são esparsos e funcionam, não deixando por isso de ser um filme quase sempre bem disposto. Scarlett Johansson, aqui no papel de Cristina, continua a ser o denominador comum dos novos filmes de Woody Allen, tendo falhado apenas "Cassandra Dream". Nova nestas andanças é Rebecca Hall (Vicky) que se junta a Cristina para passar dois meses de verão em Barcelona. Está justificado o título do filme.

Como percebemos rapidamente, Vicky é mais responsável que Cristina, ou pelo menos acha que sim. Está a estudar em Espanha, para o seu mestrado, e tem o marido à espera em New York para casar assim que regressar a casa. Cristina é a eterna sonhadora, que segundo a própria não sabe o que quer, apenas o que não quer. Os primeiros 15 minutos de filme podiam ser os primeiros 15 minutos de tantos outros filmes que começam com a mesma permissa, mas o que distingue "Vicky Cristina Barcelona" é a forma como Juan António (Bardem), um pintor divorciado, aborda Vicky e Cristina à mesa de um restaurante num dos jantares tardios em Barcelona. O teor da proposta de Bardem é um clássico instantâneo.

Tudo o que se passa nestes dois meses é digno de uma fantasia, a começar por Bardem que é demasiado interessante para ser verdade. Todos os personagens sofrem de um desequilíbrio qualquer, mas destes, afinal de contas, todos sofremos. As coisas tornam-se realmente divertidas quando a psicótica ex-mulher de Juan Antonio, Maria Elena (numa grande interpretação de Penélope Cruz que me reconquistou desde que vi "Abre Los Ojos"), entra na jogada e temos a oportunidade de presenciar o desenrolar fugaz de uma relação que só tem estabilidade, ainda que momentânea, se for a três.

Bardem, em todo o caso, é o Dom Juan perfeito: faz amor com três mulheres diferentes em poucos dias sem proferir um único logro, um único engano, uma única mentira. A sinceridade é aliás um dos pontos dominantes deste filme. Todos os diálogos são, também por isso, bastante cativantes e o ritmo do filme é quase perfeito. Não há aqui nada de transcendente, apenas divertido de seguir. "Vicky Cristina Barcelona" é um filme bem giro mas tenho muitas dúvidas que seja material para conquistar realmente um Globo de Ouro, independentemente das excelentes interpretações nele contidas.

Mas haverá melhor cidade para aventuras amorosas que Barcelona no Verão?

Veredicto: 7/10

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Before The Devil Knows You're Dead (2007)

Haverá melhor maneira de começar um filme do que com a Marisa Tomei de quatro em cima de uma cama?

Claro que há - sobretudo se não estivesse a fazer o amor com o Philip Seymour Hoffman que tem tanto de genial actor como lhe falta de sex appeal. Mas não deixa de ser um início prometedor, antevendo que estamos, provavelmente, perante um daqueles filmes sem medo de ser atrevido, cru, provocador. Puro e duro. Oops, no pun intended.

15 minutes in heaven...


Agora que as atenções estão viradas para os Óscares, vale a pena revisitar um filme que lamentavelmente passou ao lado disso há um ano, mas que interessa conhecer e sobretudo viver. Sidney Lumet (Serpico, Dog Day Afternoon) traz-nos um épico retrato da vida real que nos deixa ao mesmo tempo desconfortáveis e fascinados. Um relembrar que por vezes o que parece ser inconsequente e inofensivo acaba por despoletar uma série de acontecimentos nefastos absolutamente devastadores e impossíveis de travar.

É difícil falar de "Before The Devil Knows You're Dead" sem desvendar muita da essência daquilo que nos faz vibrar com esta estória e nos deixa colados ao ecrã durante as duas horas que esta película dura. Se não viram este filme, também não vos vou revelar mais nada. Vale a pena embarcar nesta viagem a saber zero. Se já viram, então sabem do que eu estou a falar (já dizia o outro).

Mas ainda assim há tanto para elogiar. Os irmãos são Hank e Andy, interpretados por Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman, respectivamente. Marisa Tomei é a mulher no meio, amante de um e mulher do outro, mas este é um triângulo que de triângulo até tem pouco, pois o enfoque não é esse. Andy acaba por saber de viva voz que tem sido enganado durante muito tempo mas a verdade é que quando acaba por saber, esse já é o menor dos problemas de ambos os irmãos.

Além das doses massivas de realismo, é inteligente a forma anacronista a la "Pulp Fiction" como os acontecimentos se sucedem. Ao mostrar-nos a mesma cena mais do que uma vez, com enquadramentos diferentes, estando mais informados que da última vez, Lumet consegue prender-nos ainda mais. O tom do filme é melodramático do princípio ao fim e o score de Carter Burwell é magnífico na forma como nunca se mete no caminho limitando-se a sublinhar o drama. Nada é apressado.

"Before The Devil Knows You're Dead" é um filme que merece ser visto, revisto, saboreado mas não há muito para discutir sobre ele para além da admiração das suas qualidades. É uma simples estória de um plano que correu mal e cujas consequências vão para além do pior pesadelo de todos os envolvidos. Hawke e Hoffman estão brilhantes no papel dos irmãos que vêem tudo desmoronar-se à sua volta e passam da confiança ao remorso total. Albert Finney faz de pai de ambos e tenho dificuldade de lembrar-me de um rosto mais crispado pela dor psicológica que o dele.

Como passou um filme destes completamente ao lado do buzz dos Óscares é algo que me intriga mas que constituiu, a meu ver, uma discussão perfeitamente irrelevante. Sidney Lumet não tem a regularidade de um Scorsese ou de um Kubrick mas não deve, a espaços, em brilhantismo a qualquer deles. No entanto, e como afirma Roger Ebert, não deixa de ser bonito que um realizador que ganhou Óscar de Lifetime Achievement, realize três anos mais tarde um dos seus maiores feitos.

Veredicto: 9/10

Låt den rätte komma in

O filme passou por cá apenas como sessão fugaz do festival Indie Lisboa 2008 sob o nome internacional, Let the Right One In. Fala de vampiros, pré adolescentes e amor. Ponderei, evitei, "um Gingersnaps para vampiros, estou a ver..." pensei.



Tem sido um bom ano para os vampiros. Desde o aborrecido Twilight (Crepúsculo) à série da HBO True Blood, dos produtores de American Beauty e Six Feet Under, passando pelo anúncio da transformação do anime Blood: The Last Vampire a filme live action.
Quanto a Let the Right One In, apenas tive a oportunidade de ver o filme uns meses depois, recomendado por Robert McKee.

A primeira impressão que dá desta obra de Tomas Alfredson é que vai ser mais um parado filme nórdico: escuro e branco.
Mas o sueco prova que primeiras impressões podem ser enganadoras.

O filme fala de Oskar, 12 anos, uma criança marginalizada na escola por rufias em maior número e ignorado em casa pela mãe. Um dia conhece Eli, uma menina da sua idade que vive com o seu avô e se torna sua vizinha. Na sua inocente alienação, encontram um no outro um companheiro para desligar do mundo exterior.

Enquanto isso, na sua pequena vila sob a neve, pessoas começam a desaparecer misteriosamente sem que ninguém, excepto os familiares, se dê conta.
À medida que o filme avança, as duas crianças tornam-se intímas e começam a apaixonar-se e o filme reveste-se de momento adoráveis ao vermos as trocas de olhares entre Eli e Oskar. Até que descobrimos que Eli é na verdade uma vampira que se tem alimentado dos vilões.

Para não oferecer spoilers, refiro simplesmente que na alternância entre violência explícita e romantismo pré adolescente, o climax do filme simboliza a perfeição com que o guião foi escrito a deambular para uma conclusão que satisfaz e renova a paz de alma com que o filme começa.

Entre outros pontos a salientar nesta aposta sueca, destaca-se o espectacular desempenho do cast maioritariamente composto por crianças. De notável intensidade e crueza, tanto Kåre Hedebrant como Lina Leandersson e Per Ragnar seriam claros candidatos a óscares, tivessem nascidos em países mais egocêntricos...

A beleza do filme está subjacente à profundidade com que permeamos nos sentimentos destas crianças cujos comportamentos as isolam tanto quanto a neve que os rodeia. O romance que broteja enquanto Oskar descobre que Eli é uma vampira, até que seja tarde demais para abandoná-la; a constante Eli, fria e imortal, presa no corpo e incoerências próprios de uma rapariga de doze anos, mesmo assim tomando este rapaz fraco e débil, não só vendo nele talvez um pouco dela mas aquilo que ela não se lembra de ter: um lado humano.

No final das contas, com ainda muito por dizer, a imagem inicial do filme é metaforicamente exacta: a neve branca e intensa como amor, amizade e o nosso lado humano a infiltrar-se ligeira e subtil mente no escuro vazio, dificil e violento das sombras citadinas.

Certamente um 10/10, dos melhores filmes que já vi.

A Troca (2008)



Entrei na sala sem grandes expectativas: esperava não mais do que um "Mighty Heart" passado nos anos 20. Saí da sala com algo que não esperava: "A Troca" é dos melhores filmes que vi em largos meses.


O filme destaca-se por vários motivos, que em conjunto fazem dele uma grande abertura para 2009. Clint Eastwood prova não só que está muito bem atrás das câmaras como também convence os mais cépticos (nunca me rendi totalmente ao Eastwood actor) de que tem muito para dar ao cinema.

Angelina Jolie está perfeita no papel que desempenha. A tendência para comparar esta Angelina com a de "Mighty Heart" (pessoas desaparecidas, mulher desesperada à procura, etc) é óbvia mas esta personagem, a meu ver tem lago mais. O desespero e raiva são mais contidos (aquelas palavras que quase não chegam a ser ditas na primeira chamada telefónica para a polícia são exemplo) mas a luta ultrapassa a mera busca por um ente querido. A luta de Christine é uma luta contra uma sociedade que embora esteja já no século XX funciona ainda como no século XIX. A luta de Christine Collins é ao mesmo tempo uma luta contra estereótipos, contra o protectorado hipócrita e paternalista que subjugava as mulheres (e que em muitos casos continua, mas isso é tema para outro post...), contra o poder desmedido, banhado em currupção e tráfico de influências (da polícia e do poder político), contra o desprezo para com as crianças, contra o tratamento dos menores como sendo adultos pequeninos, contra uma sociedade à beira de colapsar e renascer (com a crise de 1929 e a Guerra Mundial).

O facto de esta história se basear num caso real dá ainda mais força ao filme história. Como nos diz a PREMIERE & DVD de Janeiro: o peso do real choca o espectador porque tira a armadura de "isto é filme" que envolve grande parte das tragédias que vemos a 24hz no grande ecrã. Desprotegido, o espectador sente directamente o peso das emoções, a textura dos personagens, a densidade do enredo. É nestas alturas que um filme representado por actores pode provocar mais compaixão, mais reflexão, maior "dor de mundo" do que um telejornal, cuja imagem é "mais real", tirada dos factos.

[os parágrafos que se seguem, marcados a cor diferente, podem conter spoilers incómodos:]
E é por isto que quando o miúdo conta ao polícia que participou na morte de 20 crianças ficamos simplesmente vidrados numa tela branca. A pergunta (que fica sem resposta) é "porquê!?". Nesta altura o filme vira-se do avesso, todas emoções submersas emergem. (é também nesta altura que a Lusomundo mete o intervalo... tirando ao espectador a experiência que foi pensada e executada na mesa de montagem).
De qualquer das formas a actuação do míudo que desvenda os crimes na quinta canadiana é soberba, das melhores actuações de crianças que eu já vi no cinema (e eu até nem gosto de actuações de crianças). A montagem acentua a tensão num triângulo rapaz-detective-memórias.

De resto, em geral o filme apresenta uma montagem interessante, com lapsos temporais inteligentes (alguém marca número no telefone, no plano seguinte o telefone é pousado do outro lado - a conversa fica perdida no tempo próprio do filme mas não faz falta à história - um "faça você mesmo" interessante). Notei alguma falta de cuidado na montagem física (os cortes entre planos e algumas partes do som) que será certamente resolvida na edição de DVD.

Os cenários e o mis em scéne são muito cuidados, perto da perfeição. Além dos Thin Lizzy que enchem as ruas de Los Angeles há uma série de objectos, espaços e situações cuidadosamente retratados (de salientar a importância da rádio nos EUA dos anos 20 e a paranóia da catalogação das doenças e desvios mentais - curiosamente o criminoso não recebe nenhuma categoria).

Reparei que o filme tinha uma cor própria que se consegue não pelo uso de técnicas de edição especiais, não pelo uso de uma película específica mas pelos cenários, roupas, etc. Um táxi amarelo salta à vista nos tons suaves de castanhos, verdes, creme, etc. A cor e o ambiente ajudam imenso à imersão no já longínquo mundo da América às portas da crise. Acredito que a cor deste filme possa vir a ser um pormenor desprezado por muitos mas marcou-me bastante.

É sempre difícil usar termos como obra-prima, genialidade ou perfeição mas a verdade é que não notei a falta de nada nesta produção. Simples na aparência, tem grande complexidade e textura ao nível do psicológico e do social. Simples na edição, conta uma história de forma densa mas não exageradamente dramática. Simples nas tonalidades e cores, mostra uma grande confusão de gente, automóveis, máquinas. A central de telefones é como um micro-cosmos, uma maqueta da ruas confusas e entupidas... oops, análises psicológicas ficam para depois que esta conversa já vai longa.

Veredicto: 9/10