
Tem sido um bom ano para os vampiros. Desde o aborrecido Twilight (Crepúsculo) à série da HBO True Blood, dos produtores de American Beauty e Six Feet Under, passando pelo anúncio da transformação do anime Blood: The Last Vampire a filme live action.
Quanto a Let the Right One In, apenas tive a oportunidade de ver o filme uns meses depois, recomendado por Robert McKee.
A primeira impressão que dá desta obra de Tomas Alfredson é que vai ser mais um parado filme nórdico: escuro e branco.
Mas o sueco prova que primeiras impressões podem ser enganadoras.
O filme fala de Oskar, 12 anos, uma criança marginalizada na escola por rufias em maior número e ignorado em casa pela mãe. Um dia conhece Eli, uma menina da sua idade que vive com o seu avô e se torna sua vizinha. Na sua inocente alienação, encontram um no outro um companheiro para desligar do mundo exterior.
Enquanto isso, na sua pequena vila sob a neve, pessoas começam a desaparecer misteriosamente sem que ninguém, excepto os familiares, se dê conta.
À medida que o filme avança, as duas crianças tornam-se intímas e começam a apaixonar-se e o filme reveste-se de momento adoráveis ao vermos as trocas de olhares entre Eli e Oskar. Até que descobrimos que Eli é na verdade uma vampira que se tem alimentado dos vilões.
Para não oferecer spoilers, refiro simplesmente que na alternância entre violência explícita e romantismo pré adolescente, o climax do filme simboliza a perfeição com que o guião foi escrito a deambular para uma conclusão que satisfaz e renova a paz de alma com que o filme começa.
Entre outros pontos a salientar nesta aposta sueca, destaca-se o espectacular desempenho do cast maioritariamente composto por crianças. De notável intensidade e crueza, tanto Kåre Hedebrant como Lina Leandersson e Per Ragnar seriam claros candidatos a óscares, tivessem nascidos em países mais egocêntricos...
A beleza do filme está subjacente à profundidade com que permeamos nos sentimentos destas crianças cujos comportamentos as isolam tanto quanto a neve que os rodeia. O romance que broteja enquanto Oskar descobre que Eli é uma vampira, até que seja tarde demais para abandoná-la; a constante Eli, fria e imortal, presa no corpo e incoerências próprios de uma rapariga de doze anos, mesmo assim tomando este rapaz fraco e débil, não só vendo nele talvez um pouco dela mas aquilo que ela não se lembra de ter: um lado humano.
No final das contas, com ainda muito por dizer, a imagem inicial do filme é metaforicamente exacta: a neve branca e intensa como amor, amizade e o nosso lado humano a infiltrar-se ligeira e subtil mente no escuro vazio, dificil e violento das sombras citadinas.
Certamente um 10/10, dos melhores filmes que já vi.