Podíamos pensar que escrever sobre o festival de cinema independente de Lisboa (Indie Lisboa) umas semanas depois do festival acabado é uma estranha opção mas achei que era preciso reflectir um pouco sobre "Encounters at the end of the world". Além disto o Indie não acaba exactamente na data de encerramento porque há extensões, salas que exibem os filmes premiados. Outros filmes estão agora no circuito comercial, como A Zona ou Tyson. Quanto ao filme de Werner Herzog de que vos vim falar hoje, não está a ser exibido, que eu saiba, mas será editado em DVD ainda este ano.
Herzog era um dos dois "heróis independentes" homenageados este ano pela organização do festival. O filme que escolhi ver é o mais recente trabalho do realizador alemão. E antes que saia o próximo, com Nicholas Cage no papel principal, deixando-nos a questionar se Star Wars também foi produção independente... ...falemos da Antártida.
Herzog leva-nos na primeira pessoa até ao Sul mais a Sul do planeta com um toque de humor explora o que os documentários da National Geographic e Discovery não mostram: os habitantes humanos da Antártida. Cientistas que estudam as origens da vida, geólogos que se aventuram num vulcão de magma exposto, mas também aventureiras que viajaram por África em camiões de lixo ou filósofos que migraram para a Antártida para conduzir maquinaria pesada.
McMurdo é apresentada como uma vila com todas as suas funcionalidades, incluindo ginásio e máquina de gelados; cada trabalhador, desde o geólogo ao carpinteiro, tem uma história (como o operário descendente de um imperador da américa pré-colombiana).
Sem me alongar com detalhes deixo a recomendação para que vejam este outro lado da Antártida, especialmente se gostam de documentários "vida selvagem". Porque às vezes os cientistas e seus ajudantes podem ser tão ou mais interessantes que os pinguins.
Classificação: 9/10
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Indie Lisboa 2009 - II
Falemos do filme vencedor: Ballast, de Lance Hammer.Não tendo visto mais nenhum filme da competição de longas metragens não posso afirmar se o prémio foi bem entregue ou não mas posso assegurar o estimado leitor de que é maravilhoso ver um filme americano independente receber um prémio em terras em que se venera tudo o que é francês e se desconfia de tudo o que é 24hz americano.
Ballast é a prova de que há mais cinema nos states para além do óscar, da sala da Lusomundo, etc. Um filme calmo apenas na montagem e planos longos, rápido na evolução das personagens, na mudança de estados de espírito, nas voltas que a vida dá. No fundo trata-se de uma maquete da vida: passa lentamente cada situação individual e ocorrem verdadeiras revoluções em menos de um instante. As súbitas mudanças de humor (do filme, não dos personagens) e as quebras súbitas de ritmo de montagem, de ritmo de representação, os cortes abruptos de som, a ausência de música... há neste filme vários aspectos que o tornam singular e interessante ao mesmo tempo que o tornam difícil de digerir.
Foi-me apresentado como sendo uma espiral de sofrimento e dor que apresenta sempre uma saída e uma luz ao fundo do túnel. E assim é: o final ambíguo deixa a sensação de que falta qualquer coisa mas mostra também que contar uma história com alguma verosimilhança implica fazer um corte, uma selecção de História para fazer uma história.
As balas deixadas na água são aparente sinal de redenção mas podem ser vistas como via de salvação tanto do rapaz como do tio. Quem não viu o filme estará a esta hora a ler este post como quem lê o relatório de contas de uma empresa exportadora de casca de amendoim queimado mas é melhor que assim seja porque não quero arriscar estragar a experiência do primeiro visionamento ao estimado leitor.
Veredicto: 9/10
[destaque para a representação monocórdica e passiva de Micheal J. Smith Sr. - às vezes menos é mais, outras vezes nada é tudo - tal como a pausa também faz música, a quietude e silêncio também fazem representação]
PS - Post #100!!!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Indie Lisboa 2009 - I
Da preenchida semana de exibições do Indie Lisboa 2009 havia que fazer escolhas. Escolhi ver uma sessão de curtas, a cerimónia de encerramento e o "Encounters at the end of the world", de Werner Herzog.
Da lista de curtas metragens a concurso três me chamaram a atenção: Rabbit Punch, Cosmic Station e Lögner. Da primeira podemos dizer que é uma animação com desenho interessante, lembrando esboços rápidos, e não me ocorre mais nada. Era mau, confuso e desiludiu bastante.
Cosmic Station mostrou o que eu esperava que fosse: um retrato da vida numa estação de investigação de raios cósmicos... claro que o filme é parado e nada acontece, mas é assim a vida na estação arménia que se dedica a captar e analisar essas minúsculas partículas e radiações invisíveis. E era ver os grandes cientistas a beber copos de vodka para esquecer a melancolia ou a falar da sua tarefa como se fosse a coisa mais importante que a Humanidade inteira alguma vez tentou fazer.
Os cientistas mostram-se carregados de espírito soviético ainda que a URSS tenha caído deixando a ferrugem apoderar-se da estação de raios cósmicos. E parecem esperar soluções para as grandes questões do cosmos como aqueles personagens que esperavam Godot. Amanhã continuaram a esperar, e o assistente continuará a estender cabos como fez ao longo da deliciosa meia hora de filme.
Quanto a Lögner ( = mentiras) foi simplesmente sublime. Não era uma mas sim três curtas animações unidas sobre um tema comum. Cada uma das animações apresentava desenho completamente diferente e todas as três eram interessantes do ponto de vista da narrativa (alucinantemente rápida e numa sequência que fazia lembrar as melhores montanhas russas) e das soluções visuais. Vejam com os vossos olhos a primeira das três curtas de "Lögner".
Para os interessados no trabalho do realizador (Jonas Odell): filmtecknarna.se
Da lista de curtas metragens a concurso três me chamaram a atenção: Rabbit Punch, Cosmic Station e Lögner. Da primeira podemos dizer que é uma animação com desenho interessante, lembrando esboços rápidos, e não me ocorre mais nada. Era mau, confuso e desiludiu bastante.
Cosmic Station mostrou o que eu esperava que fosse: um retrato da vida numa estação de investigação de raios cósmicos... claro que o filme é parado e nada acontece, mas é assim a vida na estação arménia que se dedica a captar e analisar essas minúsculas partículas e radiações invisíveis. E era ver os grandes cientistas a beber copos de vodka para esquecer a melancolia ou a falar da sua tarefa como se fosse a coisa mais importante que a Humanidade inteira alguma vez tentou fazer.
Os cientistas mostram-se carregados de espírito soviético ainda que a URSS tenha caído deixando a ferrugem apoderar-se da estação de raios cósmicos. E parecem esperar soluções para as grandes questões do cosmos como aqueles personagens que esperavam Godot. Amanhã continuaram a esperar, e o assistente continuará a estender cabos como fez ao longo da deliciosa meia hora de filme.
Quanto a Lögner ( = mentiras) foi simplesmente sublime. Não era uma mas sim três curtas animações unidas sobre um tema comum. Cada uma das animações apresentava desenho completamente diferente e todas as três eram interessantes do ponto de vista da narrativa (alucinantemente rápida e numa sequência que fazia lembrar as melhores montanhas russas) e das soluções visuais. Vejam com os vossos olhos a primeira das três curtas de "Lögner".
Para os interessados no trabalho do realizador (Jonas Odell): filmtecknarna.se
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Son of Rambow (2007)
Realizado Por: Garth Jennings.
Com: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes.
IMDb
Estreou em Portugal no Festival de Cinema Independente de Lisboa'08, integrado no programa Indie Júnior, uma inovação do certame. Pelo seu horário de exibição, às 10h, não vi, na altura do festival, aquele que considerei uma das grandes apostas do evento. De facto, Son of Rambow acabou por receber o Prémio do Público Indie Júnior. É fácil perceber porquê.
É assim que começa uma verdadeira ode à amizade e ao Cinema como o imaginamos desde pequenos: uma aventura que apenas depende de uma câmara de filmar, actores destemidos e algumas engenhocas. Somos completamente contagiados pelo entusiasmo de Will e Lee, que estão decididos a ganhar um concurso para jovens cineastas. De facto, Garth Jennings não podia ter encontrado melhor forma de nos puxar para dentro do filme, já que a modesta vila que serve de cenário, as calças apertadas em baixo, o ar de punk dos anos 80 de Didier, um estudante francês, e o deslumbre pelo despontar da tecnologia são o espelho da nossa infância. Saímos do filme com vontade de ser crianças outra vez, de acreditar em tudo com a mesma ingenuidade e sede de devorar o mundo como outrora.
Veredicto: 7/10
Com: Neil Dudgeon, Bill Milner, Jessica Hynes.
IMDb
Estreou em Portugal no Festival de Cinema Independente de Lisboa'08, integrado no programa Indie Júnior, uma inovação do certame. Pelo seu horário de exibição, às 10h, não vi, na altura do festival, aquele que considerei uma das grandes apostas do evento. De facto, Son of Rambow acabou por receber o Prémio do Público Indie Júnior. É fácil perceber porquê.
Na Grã-Bretanha dos anos 80, uma pequena comunidade de uma vila rural resistia à metamorfose da sociedade para os novos cânones da modernidade entre as paredes de uma igreja protestante, que proibia os seus crentes de ver televisão e classificava como pecaminosos todos os avanços da tecnologia. Para aquelas mulheres de lenço na cabeça e homens de olhar austero, que tiravam o relógio antes de cada cerimónia religiosa, o mundo cingia-se a Deus e nada mais que a Deus. Fechado naquela comunidade de género Amish, Will Proudfoot refugiava-se num caderno onde pintava histórias de heróis aventureiros inventados por si, e fazia correr ao cantinho da página personagens animados - o princípio do Cinema, dar movimento a imagens paradas. Mas Will não conhecia o Cinema.
Incentivado pelo rufia da escola, Lee Carter, Will conheceu o Cinema a partir de algumas cenas de um filme de Rambo. Will identificou imediatamente os heróis que desenhava no caderno com as aventuras do intrépido soldado norte-americano e concordou com Lee em ser o protagonista dos seus trash movies, inspirados na personagem de Sylvester Stallone.
Incentivado pelo rufia da escola, Lee Carter, Will conheceu o Cinema a partir de algumas cenas de um filme de Rambo. Will identificou imediatamente os heróis que desenhava no caderno com as aventuras do intrépido soldado norte-americano e concordou com Lee em ser o protagonista dos seus trash movies, inspirados na personagem de Sylvester Stallone.
É assim que começa uma verdadeira ode à amizade e ao Cinema como o imaginamos desde pequenos: uma aventura que apenas depende de uma câmara de filmar, actores destemidos e algumas engenhocas. Somos completamente contagiados pelo entusiasmo de Will e Lee, que estão decididos a ganhar um concurso para jovens cineastas. De facto, Garth Jennings não podia ter encontrado melhor forma de nos puxar para dentro do filme, já que a modesta vila que serve de cenário, as calças apertadas em baixo, o ar de punk dos anos 80 de Didier, um estudante francês, e o deslumbre pelo despontar da tecnologia são o espelho da nossa infância. Saímos do filme com vontade de ser crianças outra vez, de acreditar em tudo com a mesma ingenuidade e sede de devorar o mundo como outrora.
Veredicto: 7/10
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