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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

2 em 1



A contagem descrescente para a noite dos Óscares - e simultâneamente para os comentários rabugentos do Pedro acerca da Academia - continua e como ainda estou longe de ter visto todos os principais nomeados, hoje foi dia de apreciar mais dois potenciais galardoados no próximo dia 22 (não nos esquecemos do prometido: vai haver festividades e novidades muito em breve!).

"The Wrestler" é o regresso de Darren Aronofsky depois do ligeiro flop com "The Fountain" e também, há que dizê-lo, o regresso de Mickey Rourke, quiçá para o papel da sua carreira. Como disse um grande amigo meu, "o The Wrestler é tipo um Rocky não romantizado" e não podia concordar mais com ele. Gostei da forma crua e suponho que extremamente realista como Aronofsky nos mostra o circuito independente do Wrestling americano, longe da ribalta da WWF. Mas tal como "Rocky" está longe de ser um filme de porrada (os detractores da saga que se cheguem à frente, por favor), também "The Wrestler" não o é, antes sendo uma grande dose de realidade, de um pai que recuperou o amor perdido da filha para logo a seguir o voltar a perder, de alguém que nunca foi realmente amado e que procura numa stripper o afecto que ela não quer ou não pode dar. Seguir os altos e baixos de Randy nunca enfastia e deixa-nos no final com uma sensação agridoce. Nem vou comentar as aparições da Marisa Tomei. É que nem comento.

Já "Doubt" é um autêntico filmaço, com interpretações do melhor que se fez este ano. Phillip Seymour Hoffman continua a coleccionar papéis geniais uns atrás dos outros e diga-se, em abono da verdade, que poucos além dele conseguiriam estar ao nível da Meryl Streep que aqui vemos. Um representa a dúvida, a outra a convicção, um eterno duelo entre o novo e o velho. Este é um filme que, quanto mais não fosse, nos relembra que a Fé, seja ela em que for, existe não em contraponto com a certeza mas sim com a dúvida. Basta acompanhar os 100 minutos deste drama do mais alto calibre para perceber que são da mais elementar justiça as nomeações de Hoffman, Streep, Amy Adams e sobretudo de Viola Davis - que aparece durante 10 minutos mas protagoniza, num diálogo com Meryl Streep, os melhores 10 minutos de filme que vi neste último ano.

Numa era em que é chic dizer mal dos Óscares, prefiro relativizar a sua importância ao mesmo tempo que congratulo a Academia por dar o devido relevo a este filme através de 5 nomeações, mesmo lamentando não o ver pelo menos nomeado para a categoria de Melhor Filme. A verdade é que nenhum dos nomeados para essa categoria desmerece certamente a distinção.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Before The Devil Knows You're Dead (2007)

Haverá melhor maneira de começar um filme do que com a Marisa Tomei de quatro em cima de uma cama?

Claro que há - sobretudo se não estivesse a fazer o amor com o Philip Seymour Hoffman que tem tanto de genial actor como lhe falta de sex appeal. Mas não deixa de ser um início prometedor, antevendo que estamos, provavelmente, perante um daqueles filmes sem medo de ser atrevido, cru, provocador. Puro e duro. Oops, no pun intended.

15 minutes in heaven...


Agora que as atenções estão viradas para os Óscares, vale a pena revisitar um filme que lamentavelmente passou ao lado disso há um ano, mas que interessa conhecer e sobretudo viver. Sidney Lumet (Serpico, Dog Day Afternoon) traz-nos um épico retrato da vida real que nos deixa ao mesmo tempo desconfortáveis e fascinados. Um relembrar que por vezes o que parece ser inconsequente e inofensivo acaba por despoletar uma série de acontecimentos nefastos absolutamente devastadores e impossíveis de travar.

É difícil falar de "Before The Devil Knows You're Dead" sem desvendar muita da essência daquilo que nos faz vibrar com esta estória e nos deixa colados ao ecrã durante as duas horas que esta película dura. Se não viram este filme, também não vos vou revelar mais nada. Vale a pena embarcar nesta viagem a saber zero. Se já viram, então sabem do que eu estou a falar (já dizia o outro).

Mas ainda assim há tanto para elogiar. Os irmãos são Hank e Andy, interpretados por Ethan Hawke e Philip Seymour Hoffman, respectivamente. Marisa Tomei é a mulher no meio, amante de um e mulher do outro, mas este é um triângulo que de triângulo até tem pouco, pois o enfoque não é esse. Andy acaba por saber de viva voz que tem sido enganado durante muito tempo mas a verdade é que quando acaba por saber, esse já é o menor dos problemas de ambos os irmãos.

Além das doses massivas de realismo, é inteligente a forma anacronista a la "Pulp Fiction" como os acontecimentos se sucedem. Ao mostrar-nos a mesma cena mais do que uma vez, com enquadramentos diferentes, estando mais informados que da última vez, Lumet consegue prender-nos ainda mais. O tom do filme é melodramático do princípio ao fim e o score de Carter Burwell é magnífico na forma como nunca se mete no caminho limitando-se a sublinhar o drama. Nada é apressado.

"Before The Devil Knows You're Dead" é um filme que merece ser visto, revisto, saboreado mas não há muito para discutir sobre ele para além da admiração das suas qualidades. É uma simples estória de um plano que correu mal e cujas consequências vão para além do pior pesadelo de todos os envolvidos. Hawke e Hoffman estão brilhantes no papel dos irmãos que vêem tudo desmoronar-se à sua volta e passam da confiança ao remorso total. Albert Finney faz de pai de ambos e tenho dificuldade de lembrar-me de um rosto mais crispado pela dor psicológica que o dele.

Como passou um filme destes completamente ao lado do buzz dos Óscares é algo que me intriga mas que constituiu, a meu ver, uma discussão perfeitamente irrelevante. Sidney Lumet não tem a regularidade de um Scorsese ou de um Kubrick mas não deve, a espaços, em brilhantismo a qualquer deles. No entanto, e como afirma Roger Ebert, não deixa de ser bonito que um realizador que ganhou Óscar de Lifetime Achievement, realize três anos mais tarde um dos seus maiores feitos.

Veredicto: 9/10